Veículo preparado para executar a termoterapia nos pomares
Veículo preparado para executar a termoterapia nos pomaresArlindo de Salvo Filho

A termoterapia como controle do Greening

Arlindo de Salvo Filho

Eng°. Agr°. Consultor/GTACC

arlindoconsultor@gmail.com

 

Pode parecer fantasioso. Pode parecer distante da realidade prática do dia-a-dia dos pomares, mas nenhuma ideia é descartada pela pesquisa norte-americana quando se trata da busca de soluções para o Greening. Pelo que se sabe, até o momento, o tratamento de plantas através da termoterapia tem um alto custo devido ao baixo rendimento operacional diário, mas para a Flórida é inadmissível pensar que a citricultura naquele estado pode estar perto do fim. Não se admite imaginar a Flórida sem a laranja. É muito mais do que uma questão agrária. É uma questão social, política e administrativa. Na verdade, é uma questão de honra.

Se, de um lado, a justa valorização paga pela caixa de laranja garante a continuidade do produtor da Flórida no sistema, mesmo enfrentando um acentuado declínio anual na produção por causa da doença, por outro, os recursos disponibilizados pelas agências financiadoras bancam e obrigam a pesquisa a buscar alternativas que, no mínimo, ganhem tempo para a esperada – e sonhada – solução definitiva.

Todos nós sabemos da gravidade do Greening. No Brasil, pesquisas recentes acusam a presença da doença em cerca de 20% das plantas nacionais. Nos Estados Unidos, admite-se, atualmente, que praticamente 100% das plantas da Flórida já são portadoras da bactéria causadora do HLB/Greening, provocando uma impressionante diminuição da produção anual de cítricos.

Diante desse quadro, a termoterapia é uma nova ferramenta proposta pelos pesquisadores para se incorporar ao grupo de medidas que fazem parte do pacote de manejo do HLB.

Como enfrentar essa doença?

A pesquisa de todo o mundo citrícola busca a solução para o problema. O Brasil tem se destacado ao adotar um conjunto de medidas que passaram, também, a ser praticadas por outros países.

Tudo começa com a utilização de mudas de boa procedência, conduzidas por viveiros experientes e responsáveis, com as plantas protegidas da ação de insetos pelo uso de proteção física e de inseticidas via drench. Plantios bem orientados, em espaçamentos que respeitem as plantas, as variedades, a condução e o adensamento necessários à convivência com a situação imposta pelo Greening.

Infelizmente, como engenheiro agrônomo e produtor, me entristece admitir que a eliminação das árvores doentes é uma medida efetiva para impedir a disseminação da doença pelos talhões. É triste, mas é necessário para impedir o avanço do Greening. Antes, o manejo passa pela inspeção frequente na busca de plantas sintomáticas. Deve ser feita por quem conhece bem os sintomas do HLB.

Além disso, a estratégia estende-se no campo pelo monitoramento e controle do inseto vetor da doença. O segredo é a manutenção das baixas populações do inseto. Armadilhas, pulverização de bordaduras, manejo regional e coordenado das aplicações e utilização correta da prática de rodízio dos diferentes modos de ação dos inseticidas são primordiais na condução dos pomares com pequenos índices do problema.

Dar atenção aos momentos de maior ocorrência do inseto. Pulverizar os surtos de brotações. Saber buscar o Psilídeo também é fundamental. Conhecer sua biologia, seu comportamento. Inspecionar brotos novos e procurar, principalmente, as ninfas do inseto, responsáveis por grande parte da transmissão da enfermidade.

Problema de raiz

Já foi constatado que a bactéria do HLB se concentra inicialmente no sistema radicular, sendo distribuída posteriormente para outras partes da planta. Qualquer tipo de ação que venha a prejudicar as raízes estará predispondo e favorecendo o depauperamento das plantas devido ao Greening. Danos por roçadeiras, Gomose, nematoides, besouros, herbicidas mal empregados etc são exemplos de práticas e pragas agrícolas que podem favorecer o avanço do HLB.

Pois bem, a sanidade das raízes é fundamental como estratégia de resistência ao problema. Atualmente, estuda-se a utilização de porta enxertos específicos que possam ter comportamento superior frente à doença. A nutrição parece fundamental nesse sentido, porque possibilita raízes mais vigorosas, resistentes e longevas.

Nesse sentido cabe lembrar que as replantas devem receber especial atenção, em primeiro lugar porque não podem ter a competição das árvores vizinhas, nem das plantas daninhas para se desenvolver. Portanto, necessitam de luz, água e tratamento fitossanitário, para não fenecerem frente às pragas. Em segundo lugar, devem receber um diferenciado tratamento nutricional para que possam, então, desenvolver raízes fortes e prolongadas que explorem uma área além daquela muito adensada próxima das plantas vizinhas, onde é maior a competição por nutrientes. Replantar, apesar da simplicidade do ato, é uma prática difícil e cara de manejar e conduzir.

Termoterapia

A partir de associações feitas em relação às observações constatadas na África do Sul, em 1972, pesquisadores norte-americanos da Universidade da Flórida perceberam que, em pomares localizados em regiões com maior temperatura ambiente, havia uma menor ocorrência de HLB. Em função disso, várias situações foram avaliadas na intenção de expor as plantas cítricas doentes a diversas temperaturas, procurando confirmar essas suposições e viabilizar o uso do calor como aliado na convivência com o Greening.

Em São Paulo essa realidade foi descrita algumas vezes observando-se a menor ocorrência da doença, particularmente, nas áreas noroeste do estado. Nos Estados Unidos, numa tentativa de minimizar os graves danos do HLB, houve o investimento em um protótipo que, levado ao campo, começou a promover a remissão dos sintomas característicos do Greening através da injeção de vapor dentro de uma pequena estufa individual colocada sobre cada planta doente.

Basicamente, o sistema é composto por um boiler – um reservatório onde a água esquentada transforma-se em vapor, que é conduzido por um ventilador até a planta, mantendo a temperatura do ar a 52°C por 30 segundos.

Os primeiros resultados foram muito promissores. Nove meses após o tratamento, plantas que estavam seriamente afetadas pelo HLB mostravam aspecto de árvores sadias. Houve a constatação do aumento da área interna do floema e da desagregação da população de bactéria que obstruía o vaso, após uma única aplicação.

Antes da técnica em questão, os pesquisadores buscaram outras fontes de calor – como a energia direta do sol, a água quente, o fog proporcionado por motor – na tentativa de viabilizar o custo do tratamento sugerido e seu pequeno rendimento diário. Atualmente, os valores disponibilizados dão conta de que o custo da termoterapia é de US$ 4,77 por planta.

No entanto, as plantas apresentaram sensibilidade ao calor quando não se conseguiu obedecer ao protocolo estabelecido de temperatura e tempo do tratamento. Houve danos e mortes de pequenos ramos e brotinhos. Temperaturas acima do desejado, por um tempo inadequado, mataram até as plantas daninhas expostas ao tratamento. Portanto, o pacote não está pronto. As pesquisas continuam. Os resultados iniciais são promissores, mas ainda dependem de muitos ajustes. A viabilidade passa, inclusive, pela possibilidade de se reduzir o custo do tratamento. Mas, de qualquer forma, a termoterapia é mais uma ferramenta que surge na tentativa de se descobrir uma maneira de ganhar a guerra contra essa terrível doença. A certeza é de que as expectativas quanto à técnica são as melhores possíveis e o equipamento – que começou incipiente e rústico – já adquire um perfil mais sofisticado e profissional.

O método continua a ser avaliado. Ele deve ser melhorado. Já foram tratadas mais de 20 mil plantas, mas muitas são as dúvidas para serem respondidas. Os pesquisadores – e os produtores – querem saber, por exemplo, se uma aplicação será suficiente para curar a planta. Ou, por quanto tempo a técnica manterá as boas condições da árvore? Ela mata a bactéria? Além disso, ainda pouco se sabe sobre os efeitos que o método causa ao sistema como um todo. A temperatura afeta a qualidade do suco? Qual sua influência sobre as frutas? Sobre os ramos?

A conjugação de outras práticas agrícolas à termoterapia poderá trazer benefícios ainda não descritos. Quais os efeitos que o método trará quando combinado com diferentes tipos de poda? E com a utilização conjunta de produtos nutricionais estimulantes? Ao mesmo tempo, a utilização da técnica poderá ser vantajosa no controle do Cancro Cítrico e da CVC?

Por fim, é importante saber que nenhuma das práticas sugeridas contra a doença funcionará isoladamente. Mesmo a transgenia – a qual erradamente se imagina ser a solução definitiva – dependerá do complemento de medidas sanitárias. Definitivamente, nenhuma técnica será satisfatória contra a doença, caso falte a conscientização de todos no emprego conjunto das ações propostas pela pesquisa.

Controle fitossanitário

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