Laranjas sanguineas no Brasil
Laranjas sanguineas no BrasilComTexto

Laranjas sanguíneas no Brasil

Rodrigo Rocha Latado

Pesquisador Científico/Centro Apta Citros Sylvio Moreira/IAC - Cordeirópolis, SP

rodrigo@centrodecitricultura.br

 

As laranjas podem ser divididas em dois grandes grupos, em função da coloração da polpa: as laranjas brancas ou claras e as laranjas sanguíneas.

As claras são caracterizadas pela cor laranja na polpa e no suco, devido a presença de carotenóides, que são pigmentos com cor que podem variar entre o amarelo e o vermelho. As variações de cor da polpa de frutos observadas entre as variedades deste grupo seriam devido às flutuações na quantidade dos diferentes carotenóides presentes. Entre esses carotenóides, a presença de licopeno e a maior concentração de beta-caroteno caracterizam e propiciam a formação de um subgrupo de laranjas dentro das claras, chamadas de polpa vermelha.

De modo geral, os carotenóides possuem baixa solubilidade em água e elevada solubilidade em solventes orgânicos, o que promove um suco pouco vermelho mesmo quando a polpa tem uma coloração mais acentuada. A este grupo pertence quase que a totalidade das laranjas comercais cultivadas no mundo (Figura 1), incluindo as variedades de mesa (laranjas ‘Bahias’, ‘Navel’, ‘Baianinhas’ e outras), variedades usadas para a extração de suco (‘Pera’, ‘Valência’, ‘Natal’, ‘Hamlin’ e outras), laranjas sem acidez (laranja ‘Lima’, ‘Serra d´agua’, por exemplo) e outras. Fazendo parte deste grupo e, em particular do subgrupo das laranjas de polpa vermelha, estão cinco variedades presentes no Bag – Banco Ativo de Germoplasma, do CCSM – Centro Apta Citros Sylvio Moreira: ‘Sanguínea de Mombuca’, ‘Bahia Cara-Cara’, ‘Valência Puka’, ‘Vermelha Precoce’ e ‘Sanguínea do Ceará’.

Fruto de laranja da variedade Valência, do grupo das variedades claras

O segundo grande grupo – as laranjas sanguíneas – são caracterizadas pela coloração vermelho intensa (violácea) da polpa e do suco, devido à presença do pigmento antocianina, solúvel em água. As antocianinas são pigmentos pertencentes à família dos flavonóides e possuem uma série de funções na natureza, tais como a proteção de plantas contra o ataque de patógenos, proteção contra os danos causados pela radiação UV e a pigmentação de flores, frutos e sementes, com as finalidades de atração de insetos polinizadores e de dispersão de sementes. Estes compostos têm grande importância na dieta humana, pois participam da constituição de cores e sabores dos alimentos e podem ser considerados, também, como agentes terapêuticos. Antocianinas possuem, ainda, a capacidade de proteção contra o estresse oxidativo, de prevenção contra as doenças do coração, contra certos tipos de câncer e contra outras doenças relacionadas, devido a sua capacidade de inativação de radicais livres.

Como exemplos de variedades mais conhecidas e utilizadas de laranjas sanguíneas podem ser citadas: ‘Tarocco’, ‘Moro’, ‘Sanguigno Doppio’, ‘Sanguinelli’ e ‘Sanguinelo’, dentre outras, que são mais cultivadas nas regiões do mar mediterrâneo e na Indía, por apresentarem maior aceitação comercial. O Bag, do Centro de Citricultura Sylvio Moreira, apresenta 17 variedades pertencentes a este grupo, originárias de diversos países.

Fruto de laranja da variedade ‘Moro’, do grupo das variedades sanguíneas
(Foto da direita) Fruto de laranja da variedade ‘Moro’, do grupo das variedades sanguíneas, que apresenta coloração vermelha intensa (violácea) na polpa, quando cultivado na região da Sicília, Itália (clima frio). (Foto da esquerda) Fruto de laranja da variedade ‘Moro’, do grupo das variedades sanguíneas, que apresenta coloração vermelha clara na polpa, quando cultivado em Cordeirópolis, SP (clima quente).

 

A presença da coloração violácea e sua intensidade na polpa das laranjas sanguíneas são dependentes de vários fatores, mas principalmente do clima da região em que são cultivadas. Regiões de clima ameno e/ou que apresentam maior amplitude térmica diária (dias quentes e noites frias) são as que favorecem a formação de frutos com maior teores de antocianina, resultando numa coloração mais intensa. Isto pode ser comprovado pelo fato de várias variedades sanguíneas apresentarem frutos com forte coloração violácea quando cultivadas nas regiões de clima mediterrâneo e apresentarem frutos com coloração vermelha clara, quando cultivadas em regiões mais quentes, como no município de Cordeirópolis, SP, por exemplo.

Já existem relatos disponíveis sobre o potencial produtivo e sobre a caracterização agronômica de variedades de laranjas sanguíneas no Brasil. Nesse sentido, o CCSM tem uma rede experimental estabelecida em diferentes regiões do estado de São Paulo (sul, centro e norte) para avaliação de variedades deste grupo. Assim, é possível avaliar o efeito do clima na performance agronômica destas variedades e nas características físicas e químicas dos seus frutos, visando identificar e selecionar os materiais superiores e as melhores regiões para o cultivo comercial, o que poderá resultar no lançamento de novas variedades.

Uma característica importante é a possibilidade de incrementar a concentração de antocianinas nos frutos e no suco de laranjas sanguíneas por meio do manejo de pós-colheita, com a conservação dos frutos em câmara fria, em temperaturas baixas (4°C ou 10oC), durante um período de tempo que pode variar entre 30 e 90 dias. Está comprovado que o armazenamento de frutos de variedades sanguíneas a 10oC, ocasiona o acúmulo de antocianinas totais no fruto e no suco, variando em função da variedade.

O CCSM procura desse modo desenvolver um pacote tecnológico para o cultivo e processamento de laranjas sanguíneas no Brasil, por meio de: i) caracterização agronômica das plantas e da qualidade de frutos destas variedades, destacando-se os aspectos de capacidade produtiva, qualidade de frutos, resistência a doenças e pragas e a determinação da curva de maturação e do ponto ideal de colheita dos frutos; ii) caracterização e a quantificação de nutrientes adicionais (principalmente as antocianinas) presentes na polpa e no suco de frutos destas variedades; iii) avaliação dos efeitos de variedades, de estádio de maturação de frutos e do clima (local), no acúmulo de nutrientes adicionais; iv) avaliação do efeito do armazenamento de frutos em baixas temperaturas, no acúmulo de antocianinas no suco de frutos de variedades sanguíneas; v) avaliação do efeito do processamento do suco (pasteurização e/ou concentração), na manutenção do conteúdo dos nutrientes adicionais, presentes no suco destas variedades.

A diferença entre as laranjas de polpas vermelhas e as laranjas sanguíneas, é que essas últimas necessitam de frio para formar a cor, que é bem mais acentuada, quase roxa de tão intensa. As laranjas de polpa vermelha independem do clima, mas não são tão coloridas quanto seu nome sugere. De qualquer modo, destacam-se das demais laranjas do grupo das claras em relação à cor. Laranjas ‘Bahia Cara-Cara’, plantadas em Itaberá, SP, possuem polpa nitidamente vermelhas. Outra variedade desse subgrupo, a ‘Vermelha Precoce’, encontrada em uma propriedade de Mogi Mirim, SP, parece ter sido originada por uma mutação ocorrida na laranja ‘Hamlin’, sendo muito produtiva e responsável por um suco avermelhado intenso, podendo ser uma interessante alternativa para ser plantada no norte de São Paulo, já que sua cor independe do clima.

No caso das laranjas sanguíneas, a cor é obtida graças às horas de frio, capazes de aumentar a concentração de antocianina. Quando colhidas em região de clima mais quente precisam passar por algumas horas na câmara fria para mudarem a cor. Mesmo no clima mediterrâneo da Itália, nas condições climáticas de determinados anos, as variedades sanguíneas precisam de frio artificial para que possam completar a concentração de antocianina necessária para atingirem 600 a 700 mg/Litro de suco, que é o padrão que as classifica como sanguínea. Nos ensaios em São Paulo, mesmo com a utilização de câmara fria, não se conseguiu acumular mais do que 250 mg de antocianina/L de suco, analisando laranjas provenientes do CCSM, em Cordeirópolis, SP.

No entanto, as possibilidades são amplas. Na Itália existem mais de 50 diferentes clones de sanguíneas. Muitos fatores devem ser analisados. Produtividade, persistência na planta, compatibilidade com porta enxertos etc. Talvez esse trabalho, que está apenas começando, possa ser a base para a obtenção de um híbrido de sanguínea com laranja ‘Pera’, que tenha a enorme vantagem de ser portador de alto teor de antocianina, independente do clima. Não é impossível!

A variedade ‘Moro’ é conhecida por ser própria para suco; ‘Sanguinelli’, tem dupla aptidão; enquanto que a ‘Tarocco’ é fruta para a mesa. A ‘Tarocco’ é uma fruta grande, de casca fina, com muito sabor, muito suco e, normalmente, não apresenta sementes. Apesar de violácea, sua coloração não é tão intensa quanto à da ‘Moro’, mas tem a preferência das donas de casa europeias.

Considerando os aspectos saudáveis observados a favor dos pigmentos violáceos na composição de alimentos, alguns ensaios foram propostos para se conhecer o comportamento das variedades sanguíneas plantadas em diferentes regiões do estado de São Paulo e suas frutas preservadas em câmara fria com o objetivo de avaliar o aumento da intensidade de sua cor através do acúmulo de antocianina.

Estudando a concentração de antocianina e a coloração em variedades sanguíneas italianas (‘Moro’, ‘Sanguinelli’, ‘Tarocco’ e ‘Malta Blood’) plantadas em dois municípios paulistas, Bofete e Barretos (este, com uma temperatura média maior que o primeiro), os resultados mais expressivos no campo sempre foram alcançados nas laranjas provenientes do clima mais frio (Bofete), independentemente da maturação, sendo visível o aumento das concentrações do pigmento após a permanência na câmara fria, em uma temperatura de 10°C, por 45 dias.

Amostras de frutos de oito variedades de laranjas sanguíneas: (A) no dia da colheita; (B) no 45º dia de armazenamento a 10oC.
Amostras de frutos de oito variedades de laranjas sanguíneas: (A) no dia da colheita; (B) no 45º dia de armazenamento a 10ºC.
Amostras de suco de frutos de oito variedades de laranjas sanguíneas: (A) no dia da colheita; (B) no 45º dia de armazenamento a 10oC.
Amostras de suco de frutos de oito variedades de laranjas sanguíneas: (A) no dia da colheita; (B) no 45º dia de armazenamento a 10ºC.

Existem entraves, mas todos superáveis, como, por exemplo, o fato de que as variedades sanguíneas italianas são todas precoces e de meia-estação. Além disso, comparadas ao gosto brasileiro, têm um alto índice de acidez. Apesar do brasileiro não ter o hábito de consumir laranjas com essa coloração, o objetivo desse projeto seria viabilizar novas variedades para suco e para mesa. A primeira resistência estaria na cor. Mas costumes podem ser mudados.

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