Fertirrigação
FertirrigaçãoDécio Joaquim

Manejo nutricional eficiente da fertirrigação com monitoramento

Luiz Dimenstein

Engº. Agrº.

luiz.dimenstein@iclbrasil.com.br

 

Os fertilizantes empregados na fertirrigação são, em geral, sais. Quando aplicados no solo formam um coquetel de nutrientes com capacidade de promover a salinização, que fora de controle pode prejudicar. Em maior ou menor proporção, essa situação é influenciada, também, por outros diversos fatores. Mas conhecer os níveis de salinização em cada fase do desenvolvimento de uma planta poder interferir corretamente sobre a composição dos fertilizantes empregados em cada período vegetativo, é a chave para obter os melhores resultados dessa técnica fascinante.

Em síntese, o conhecimento da situação momentânea permite a manipulação nutricional correta por meio da fertirrigação, capaz de fornecer os vários elementos minerais necessários, sem os riscos das dosagens excessivas.

A teoria ensina que sempre se deve fertirrigar em pequenas e frequentes doses. É um conceito contrário à ideia de irrigar sempre e fertirrigar, apenas, de vez em quando. Com isso, além de reduzir desperdícios, diminuindo a lixiviação e a salinização, aumenta a eficiência do processo quando se compara à fertirrigação esporádica e exagerada.

A salinidade pode ser facilmente medida por um aparelho digital portátil, chamado de condutivímetro. O aparelho mede a condutividade elétrica (CE) de uma determinada solução, gerada pela salinidade. Os sais, quando dissolvidos em água, perdem sua neutralidade elétrica e se dissociam em íons com cargas elétricas positivas (cátions) e negativas (ânions), que conduzem eletricidade e são medidas pelo condutivímetro. A adição de sais com os fertilizantes promove uma salinidade proporcional possível de se avaliar através de rotineiras medições da CE.

A intenção é poder manipular o sistema, permitindo manejar a CE da solução nutritiva do solo ao longo de todas as fases fenológicas do ciclo de cultivo, mantendo a salinidade baixa na fase jovem das plantas, aumentando gradualmente até a maturação. Para a maioria dos cultivos, é normal iniciar com uma CE entre 1,0 a 1,5 mS/cm (miliSiemens por cm) na fase de plantas jovens e, com o acréscimo de fertilizantes, ter aumentada a CE para valores entre 2 mS/cm a 3 mS/cm, na fase final de maturação e colheita da cultura.

Como informação adicional, dentro dos níveis toleráveis de salinidade suportados pela maioria das plantas cultivadas (até 5 mS/cm), a leitura da CE permite uma associação direta com o grau de salinidade. Por exemplo, uma CE de 4 mS/cm, tem o dobro da salinidade de uma situação onde a leitura da CE seja 2 mS/cm. Entretanto, valores acima de 7 mS/cm, deixam de obedecer uma relação linear entre a condutividade elétrica e a salinidade, deixando, nesse ponto, de serem empregados como parâmetros de comparação nos cálculos das doses de fertilizantes para a fertirrigação.

Excesso de adubação: o pecado mais comum

Um grande paradoxo na nutrição de plantas está ligado ao fato de que agricultores brasileiros preferem pecar pelo excesso à falta do adubo. O resultado desse comportamento é que adubando com doses abusivas, os produtores estão salinizando os solos, gastando muito com os fertilizantes e, por incrível que possa parecer, prejudicando o desempenho das plantas e as suas produtividades.

Esclarecendo o parágrafo anterior: na prática, existe uma “briga” pela água entre as raízes e o solo. Caso a salinidade esteja baixa, as raízes conseguem absorver água com facilidade, que tende a se deslocar para o meio interno, mais concentrado. Contudo, inversamente quando a solução do solo concentra-se devido ao aumento da salinidade (ou da CE), a absorção de água pelas raízes é dificultada pela sua própria retenção e dos sais pelo solo.

A conta é simples: cada CE equivale a uma força de retenção da água no solo. Para uma unidade de CE (1 mS/cm), a força equivalente de retenção é de -0,3 atmosferas (atm). Assim, para uma CE de 5 mS/cm, por exemplo, significa uma tensão de -1,5 atm de força de retenção de água no solo e isso dificulta as raízes a captar água.

Nos países tropicais, em dias de grande calor, particularmente entre 10 horas e 16 horas, existe uma forte tendência em aumentar a transpiração pelas folhas. Mas, ao mesmo tempo, se há dificuldade em absorver água pelas raízes por excesso de salinização no solo, a planta – em uma defesa natural – fecha os estômatos para não se desidratar, provocando um menor número de horas de fotossíntese nos horários de maior luminosidade. Volta a abrir os estômatos no final da tarde quando transpira em ritmo mais ameno, consequentemente com uma fotossíntese menos eficaz, com perda de eficiência produtiva, que pode ser causada pela alta salinização provocada por um excesso de adubação.

Níveis de salinidade acima de 5 mS/cm, equivalente a uma tensão de -1,5 atm, estão fora do intervalo considerado fisiologicamente bom para a maioria das plantas cultivadas, causando estresse hídrico facilmente. Normalmente se deve manter valores abaixo de 1 atm (até, aproximadamente, 3 mS/cm), como limite. A medição da CE é fácil, direta e imediata e por equivalência se calcula os valores em atm, o que pode ser facilmente manejado e controlado via fertirrigação.

Método dos extratores de solução do solo

Utilizando o método dos extratores de solução do solo pode-se adotar o melhor critério de fornecer os fertilizantes em quantidades por volume de água irrigada e não mais em kg/hectare ou g/planta, comuns em dosagens de agricultura de sequeiro. Para isso, o critério empregado é a composição da salinidade no bulbo molhado. Embora a sugestão seja quantitativa, o ideal é manipular as dosagens de fertilizantes aumentando ou diminuindo seus valores por m³ de água irrigada obedecendo ao controle da CE (condutividade elétrica) desejada para cada fase do desenvolvimento da planta cultivada. Ou seja, ajustar a salinidade desejada por meio da otimização da nutrição fornecida.

A coleta da solução nutritiva do solo pode ser feita com grande facilidade por meio do uso de tubos chamados de ESS (Extratores de Solução do Solo), que devem ser enterrados em três profundidades, normalmente 15, 30 e 45 cm. Com o auxílio de uma seringa, se faz vácuo extraindo o ar dos tubos quando o solo estiver molhado. Isso é feito, geralmente, ao final de uma irrigação quando o solo estiver próximo à capacidade de campo( momento ideal para engatilhar e promover o vácuo). Ao repetir a retirada de ar por, pelo menos, três vezes, pode-se perceber que o êmbolo da seringa desloca-se com dificuldade, indicando que o tubo de sucção está sob vácuo. De outra forma, se a seringa move-se facilmente, é sinal de que ainda não há vácuo. Em solo seco, por exemplo, não se consegue formar o vácuo. Após duas ou três horas de espera sob ação do vácuo a solução nutritiva do solo enche os tubos extratores. Deve-se liberar o vácuo e com a própria seringa coletar as amostras e medir a CE para saber o nível de salinidade em cada
horizonte em que se distribui o bulbo ou a faixa de solo molhado em que se concentra o sistema radicular. Esses tubos fazem um esboço do que as raízes estão usufruindo de nutrientes disponíveis na solução do solo em cada profundidade coletada como amostra.

Identificando lixiviação através da medição da CE

A CE medida em três profundidades pode facilmente indicar se está havendo ou não, lixiviação dos fertilizantes empregados por meio de uma lâmina de irrigação exagerada. Como exemplo: se a CE no tubo extrator colocado a 15 cm de profundidade estiver marcando 1 mS/cm; 3mS/cm, no tubo a 30 cm; e, 5 mS/cm, no tubo a 45 cm, isso indica excesso de sais lixiviados para os horizontes mais profundos, devido ao excesso de rega. A tendência de distribuição dos sais deverá ser confirmada nas coletas seguintes, sugerindo, de acordo com o exemplo, que se diminua a lâmina de irrigação.

O objetivo é otimizar a distribuição dos fertilizantes onde haja maior concentração de raízes ativas, minimizando as perdas e efetuando correções na fertirrigação sempre que necessário, a fim de manter a salinidade desejada a cada fase do cultivo.

Manejo do Brix: estratégia interessante com a manipulação da CE

Como influenciar a formação de açúcares das frutas, da cana e de outros vegetais por meio do controle da CE via fertirrigação? Deve-se considerar uma situação em que o desenvolvimento do tamanho e do formato do vegetal já tenha atingido o desejado, aguardando-se apenas a sua maturação para realizar a colheita.

Sabe-se que a partir da fase final de frutificação e, principalmente, no final do ciclo da cultura, deve-se dificultar a absorção de água pelo vegetal, conferindo uma particularidade decisiva para a fertirrigação fornecida naquela ocasião, tornando os solutos mais concentrados em potássio.

Valores de CE mantidos acima de 3 mS/cm (podendo superar 4 mS/cm, inclusive), durante as últimas semanas de cultivo antes da colheita, elevam os teores medidos de graus Brix. Níveis de CE abaixo de 3 mS/cm favorecem a absorção de água e de pouco soluto, formando um fruto mais “aguado”, ou seja, com Brix menor. Em fases vegetativas iniciais, quando a planta e os frutos ainda estão em desenvolvimento, a CE deve ser mantida entre 1,5 mS/cm e 2,5 mS/cm, para evitar inibição na absorção de água – importantíssima para garantir alta produtividade. Por outro lado, a manutenção da CE mais baixa do que 1,5 mS/cm fará com que a planta seja subalimentada, com suprimento insuficiente de nutrientes para seu desenvolvimento máximo desejado. Vale ressaltar que a composição da salinidade deve ter a contribuição dos diversos nutrientes.

Limitantes nutricionais foliares para a formação de um Brix maior

Brix é uma escala numérica representativa do acúmulo de açúcares por meio de um processo bioquímico com pontos críticos que ocorrem em momentos específicos. Começa com a síntese e o acúmulo de moléculas energéticas de ATP (Adenosina Trisfosfato), na fase anterior a maturação, com forte demanda de fósforo. Nesse ponto, a falta desse nutriente seria o primeiro grande fator de limitação. Depois, o potássio age como o maior ativador enzimático durante a maturação, além de ser importante regulador osmótico. O magnésio – fornecido principalmente como nitrato de magnésio, é responsável pela quebra do amido em açúcares de cadeias curtas, sendo o elemento presente no núcleo da clorofila para manter a capacidade fotossintética enquanto a senescência começa a decompor as clorofilas das folhas mais velhas. Em paralelo, também como ativadores enzimáticos de final de ciclo e reguladores da fotossíntese, estão os cátions dos microelementos manganês, zinco, cobre e ferro. São todos necessários para que não haja limitação à f
ormação e acúmulo de açúcares nas fases de pré-maturação e maturação das plantas e frutos que precisam formar altos índices de grau Brix.

O pH da solução do solo e a disponibilidade de nutrientes

O controle do pH da solução do solo via fertirrigação é uma necessidade para o sucesso do cultivo. Deve-se monitorá-lo com medições com peagâmetro nas coletas da solução do solo com os ESS e sempre que necessário efetuar correções com fertilizantes mais ácidos ou mais alcalinos para manter o pH entre 5,7 e 7,5 que disponibilizam os nutrientes de modo equilibrado, mantendo a solubilidade de todos, evitando precipitações no solo.

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