Décio Joaquim
Revitalizar a cadeia do limão para não perder o negócioDécio Joaquim

Revitalizar a cadeia do limão, para não perder o negócio

Afonso Castelluci

Presidente da ABPEL

 

A ABPEL – Associação Brasileira de Produtores e Exportadores de Limão, sediada em Itajobi, SP, irá completar 13 anos. Desde 2015, uma nova administração está se empenhando em desenvolver e aprimorar, não apenas a cultura do limão da região de Catanduva, SP, mas de todo o país. A intenção dessa diretoria é a de retratar o momento atual, para intervir onde o setor mais necessitar. Ouvindo toda a cadeia produtiva do limão ‘Tahiti’, queremos ir de encontro aos anseios de produtores, dos exportadores, dos homens dos barracões, considerando os acontecimentos, as tendências e as expectativas do que for mais importante no contexto presente.

A força e o valor social desta comunidade podem ser aferidos pelos números disponíveis. Apesar da falta de estatística mais precisa e, até certo ponto, confiável, o número de plantas de Tahiti no Brasil está na casa dos 10 milhões, sendo que 25% desse total está situado em nossa região sede (municípios de Catanduva, Itajobi, Novo Horizonte, Urupês, Santa Adélia, Marapoama e Pindorama). Se estimarmos uma produtividade média em torno de 110 kg de fruta por árvore, essa região produz aproximadamente 270 mil toneladas de lima ‘Tahiti’, que através da emissão e da movimentação de PTVs (Permissões de Trânsito Vegetal), pode-se deduzir que 56% dessa produção (cerca de 151 mil toneladas) destina-se aos mercados fora do estado de São Paulo, incluindo a exportação. Mas ressalve-se que, provavelmente, dos 44% que são comercializados em São Paulo, uma parte também acaba indo para fora das fronteiras do estado através das diversas Ceagesps (Centrais de Abastecimento).

Apesar de não conseguirmos dados referentes a 2015, os valores de 2014 e os primeiros três meses de 2016 servem bem para posicionar a demanda da fruta. Novamente, baseado no destino dos PTVs – compilados pelos escritórios de Defesa Agropecuária, da Secretaria de Agricultura e Pecuária de São Paulo – foi possível aferir que a exportação absorve de 20% a 30% de toda a produção do ‘Tahiti’ regional.

Anseios revelados

Tivemos a curiosidade e o interesse em ouvir nossos associados para procurar ser fiel à realidade ao relatar os anseios do nosso setor. Ouvimos o plantador, a citrícola, o transportador e o comerciante, e traçamos um retrato da situação do ‘Tahiti’.

Por mais estranho que possa parecer, atualmente, a indústria – que quase sempre trabalha com preços aquém do mercado interno e da exportação – é a grande e verdadeira influenciadora dos preços do mercado. Atendendo seus critérios de negócio e suas possibilidades de explorar os subprodutos do limão, ela entra no negócio, às vezes mais forte, outras vezes, mais fraca, em função dos valores do mercado mundial, comprando e mexendo com o cenário local.

O produtor, por sua vez, se sente atraído pela “facilidade” de negociar sem cumprir as exigências da exportação, que normalmente exige uma postura que poucos atendem. Na verdade, a grande maioria dos fruticultores não é certificada, não gera CFO (Certificado Fitossanitário de Origem), o que impede a elaboração do CFOC (Certificado Fitossanitário de Origem Consolidado) por parte do exportador e tem grande dificuldade para incluir-se na relação daqueles que possuem toda a documentação necessária para o comércio externo. A grande parte do limão que vem sendo exportado, não obedece a totalidade das exigências, transitando com informações e documentos que não são 100% confiáveis.

Como é de conhecimento geral, a fruta para exportação tem que ser diferenciada, sem “barriga branca”, com tamanho, coloração, casca e rugosidade estritamente definidos, sem pragas, doenças ou problemas fisiológicos, o que inibe a oferta e faz com que cresça o interesse do produtor pela indústria, que adota análises de qualidade menos rígidas e, atualmente, está pagando um bom preço pelo ‘Tahiti’, explicado pelo ótimo resultado de sua participação no excelente comércio de óleos essenciais, além do próprio suco da fruta.

Por outro lado, a indústria não deve ser considerada como inimiga, mas, sim, como um concorrente necessário, apesar de que não há nenhum controle sobre o seu crescimento. Em face da sazonalidade do limão destinado à indústria, existe um comprometimento normal de certo volume que atenderia o mercado interno e a comercialização, o que gera desajustes para mais ou para menos, nos mercados em questão.

Falta comprometimento

O mercado mundial de limão é crescente. Apesar disso, o Brasil corre sérios riscos de ser alijado dessa oportunidade. Na Ásia, crescem os plantios e os investimentos nesse mercado por parte da Tailândia, que de forma organizada e muito profissional, vem ganhando espaço. O México – tradicional concorrente do limão nacional – é o principal fornecedor dos Estados Unidos, além de chegar fácil aos portos europeus.

A estrutura mexicana baseia-se em poucos Centros de Comercialização que compram toda a produção dos produtores, que são pequenos, mas organizados. Assim, sabe-se ao certo, todos os valores que envolvem cada elo da cadeia a cada safra. Em função disso, existe um projeto que modula produção, processamento, transporte e exportação.

No Brasil, tudo é empírico. Cada produtor age por si. As tomadas de decisões não levam em consideração nenhum fator fora da fazenda. Aqui, os participantes do sistema não acompanham e não sabem o que se passa nos principais mercados mundiais. Não se conhece nada sobre as demandas dos outros países, quer seja norte americanos, europeus ou do Oriente Médio.

A falta de integração entre produtores, citrícolas e mercadistas, faz com que a colheita seja dirigida para a obtenção de melhores resultados financeiros para o produtor, o que faz todo o sentido sob o ponto de vista do retorno do investimento. Contudo, agindo desta forma, a fruta nem sempre é colhida no momento adequado, visto que o produtor fica aguardando para retirá-la da planta, gerando um desequilíbrio nos mercados interno e externo, uma vez que provoca excesso de produção em alguns instantes e falta em outros, provocando variações significativas no preço final do limão.

A única preocupação é com o preço. Em contrapartida, não existe engajamento, muito menos comprometimento com o setor. Basta ver os arrendamentos de pomares para investidores, que só visam a comercialização e não se importam com a qualidade da fruta gerada. Isso, também, é um problema no final do processo e influencia o negócio como um todo.

O dia a dia dos pomares mudou. Os implementos tomaram conta de postos de serviço. A atividade do citricultor tornou-se menos apaixonante. Há uma maior proliferação de problemas fitossanitários e os custos, também, se avolumaram. Mas alguns critérios não podem ser abandonados.

Mesmo o produtor tradicional, que demonstra cuidados em defender a lavoura contra as pragas, parece não ligar para as incursões feitas pelos “formiguinhas”, que entram em todos os pomares e não se preocupam se estão ou não transmitindo doenças, pensando apenas em levar embora a produção que lhes foi vendida. Os paradigmas precisam ser quebrados. Não se pode admitir entregar a roça na mão de quem não se interessa por ela, com a justificativa de que “é assim mesmo, desde a época do meu avô!”.

Nada contra esses transportadores, intermediários que fazem parte da cadeia produtiva e são necessários, mas que fazem de sua atividade um fim, quando deveriam, também, zelar pela sanidade de todos os pomares e do negócio em si. Entendemos que a prática deve ser adequada e integrada ao resto do processo. Muitos, acabam participando negativamente da cadeia. Não emitem nota fiscal, não têm qualquer documentação, não têm controle algum, trabalham totalmente irregulares. Esse, é outro fato que parece estar ligado exclusivamente à lavoura, mas que prejudica a comercialização final. Tudo fica comprometido quando não há um projeto de continuidade e expansão muito bem definido e delineado.

O negócio precisa ser revisado

Considerando os pontos tratados anteriormente, faz-se necessário uma integração mais adequada e elaborada para o plantio, produção, manejo e comercialização do limão, sugerindo uma mudança radical nas operações da cadeia produtiva do limão.

Caso essa mudança não ocorra – e logo – o país acabará cedendo seu lugar no mercado mundial da fruta para outros países onde a estrutura é mais organizada, com melhor qualidade e mais barata. O Brasil poderá ser surpreendido, a qualquer momento, devido, por exemplo, à utilização de produtos defensivos proibidos que permitem resíduos inadequados sobre a fruta. Se faz necessário marcar território através de marketing nas mídias sociais. Temos que elaborar um projeto de negócio, integrando todas as partes envolvidas no limão, nas diversas atividades, inclusive, as autoridades constituídas, na formatação de uma política de qualidade e preços que possa obter recursos para investimentos no setor, receber suporte técnico para orientar todo o manejo no campo e nos packing houses e promover o fortalecimento, a revitalização e/ou a criação de associações e cooperativas que seriam fundamentais para uma adequada integração com o mercado externo. Por fim, a instituição de um selo de qualidade para os operadores comprometidos com as regras e normas das boas práticas estabelecidas através da participação de todos, valorizando o limão.

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