Pomar de Laranja
Pomar de Laranja

Distribuição e flutuação do Ácaro da Leprose (Brevipalpus spp) em plantas de citros

Alex Marques Bazzo

Cocamar

alexmbazzo@gmail.com
Renato Beozzo Bassanezi

Fundecitrus

 

Objetivando confirmar dados sobre a flutuação populacional e a biologia do Ácaro da Leprose em duas situações climáticas de produção de citros no estado de São Paulo, efetivamente os autores alcançaram resultados diversos, inclusive entre as variedades avaliadas por conta das suas características fenológicas. O artigo resume a dissertação do primeiro autor no Mestrado Profissional do Fundecitrus, o Mastercitrus

Também conhecido como Ácaro Plano, o Ácaro da Leprose dos Citros (Brevipalpus spp) é considerado uma praga chave para a citricultura brasileira por atacar frequentemente as laranjeiras doces [Citrus sinensis (L.) Osbeck] durante todo o ano e poder causar grandes prejuízos quando não controlado adequadamente. Embora o ácaro possa causar danos diretos às plantas infestadas, sua importância é atribuída também à associação com a doença conhecida como Leprose dos Citros, por ser o agente transmissor do Citrus Leprosis Vírus (CiLV).

Citada no Brasil desde a década de 30, a Leprose dos Citros tornou-se uma das mais importantes doenças causadas por vírus nos pomares brasileiros, devido a sua ampla disseminação e capacidade de causar danos severos aos pomares de laranja atacados, reduzindo a produtividade e longevidade das plantas afetadas, por afetar a capacidade fotossintética e queda de folhas, depreciação e queda prematura de frutos, assim como a seca e morte de ramos.

Como não ocorre transmissão transovariana, ou seja, o ácaro não nasce infectado pelo vírus, é necessário que ele se alimente em tecidos da planta contaminados pelo vírus por mais de uma hora. Todos os estágios de desenvolvimento do ácaro que se alimentam são capazes de adquirir e transmitir o vírus para a laranjeira doce.

Presente em quase todas as regiões produtoras de citros do país e disseminada por todo o estado de São Paulo, o Ácaro da Leprose apresenta índices maiores de incidência e severidade nas regiões norte e noroeste do estado, onde as temperaturas são mais elevadas e ocorrem longos períodos de estiagens durante o ano, o que favorece o aumento populacional do ácaro vetor.

O Brevipalpus spp, tem como movimentação característica dentro das plantas, a procura de locais abrigados para a postura de ovos e contra predadores. Em um estudo sobre o comportamento do Ácaro da Leprose em frutos de laranja doce com e sem lesões de Verrugose, ramos e folhas, os autores demonstraram que os frutos são os locais preferidos pelos ácaros para o seu desenvolvimento, principalmente os frutos com lesões de Verrugose, enquanto que as folhas eram os locais que os ácaros evitavam para o seu desenvolvimento. Comumente, em pomares comerciais o Ácaro da Leprose é encontrado com maior frequência no ponteiro e na parte interna das plantas.
Sendo assim, os autores realizaram o presente trabalho que teve como objetivo avaliar a flutuação populacional do Ácaro da Leprose dos Citros em função da precipitação pluviométrica, umidade relativa do ar, diâmetro de fruto e variedade de laranja por tipo de maturação e, determinar o padrão de distribuição intraplanta do Ácaro da Leprose (preferência por tipo de órgão e por estrato da planta) ao longo do ano e relacioná-lo com as variáveis citadas.

O trabalho foi conduzido em duas diferentes regiões do estado de São Paulo, sendo um na região central do estado, nos municípios de Nova Europa e Gavião Peixoto e outra área na região sudoeste do estado, no município de Santa Cruz do Rio Pardo.

Para as avaliações na região centro, foi utilizada a variedade ‘Pera Rio’, de meia estação, enxertada em limoeiro ‘Cravo’ (C.limonia Osbeck), com seis anos de idade. Já na região sudoeste do estado, foram utilizadas duas variedades tardias para as avaliações do trabalho, ambas enxertadas em limoeiro ‘Cravo’. Um talhão foi da variedade ‘Valência’, enquanto o outro, da variedade ‘Natal’.

Para a seleção dos talhões para a condução do experimento, foi dada a prioridade de se utilizar áreas onde a última aplicação de acaricida havia ocorrido após seis meses, além disso, durante os trabalhos não foram realizadas aplicações de acaricida em nenhum dos talhões avaliados.

Para a avaliação, a copa das plantas foi dividida em três estratos verticais: superior (acima de 2,0 m de altura), médio (entre 1,0 e 2,0 m de altura) e inferior (abaixo de 1,0 m de altura); e também em dois estratos horizontais: externo (até os primeiros 0,50 m a partir da extremidade da copa) e interno (após os primeiros 0,50 m a partir da extremidade da copa).
A combinação dos estratos verticais com os horizontais totalizou seis estratos por planta. Para cada estrato, foram avaliados 10 ramos, 10 folhas e 10 frutos, sendo que este último apenas quando estavam presentes. Além disso, em cada amostragem também foram observados diâmetro médio dos frutos (DMF), a umidade relativa do ar (UR) e a precipitação pluviométrica acumulada (PPA).

Após as avaliações e as análises dos dados pode-se observar em condições naturais, sem a aplicação de acaricidas, a presença de Ácaro da Leprose.

Com relação às análises para a variedade de meia estação ‘Pera Rio’, na região centro do estado, o pico de população de ácaro se deu entre os meses de agosto e setembro, nos meses seguintes foi diminuindo gradativamente e mantiveram-se baixos de dezembro a maio. O período de pico de população de ácaro, coincidiu com os períodos de menores precipitações pluviométricas acumuladas. Quando se compara a população de ácaro com o DMF, pode-se observar que a medida que os frutos crescem, a população de Brevipalpus spp também aumenta. A partir do momento que os frutos atingem diâmetros próximos a 5,0 cm, há uma maior migração dos ácaros para esses órgãos.
Nas variedades tardias, ‘Valência’ e ‘Natal’, na região sudoeste do estado, ocorrem dois períodos diferentes de pico de população de ácaros, sendo um entre os meses de abril e maio e outro entre setembro e novembro. Como característica, essas variedades apresentam maturações tardias e devido a este fato ocorre uma sobreposição de floradas, ou seja, após as colheitas realizadas entre dezembro e fevereiro, na planta já existiam frutos com diâmetro superior a 5,0 cm referentes à florada de outubro. Isso fez com que pudesse ocorrer uma continuidade na multiplicação dos ácaros e desta forma ocorreu uma fraca relação entre o DMF e população de Ácaros da Leprose nessas variedades.

Com relação às características climáticas, na região sudoeste as chuvas foram melhores distribuídas, quando se compara com a região centro do estado. Desta forma a umidade relativa do ar sempre se manteve próxima aos 80%; isso faz com que ocorra também uma fraca relação entre condições climáticas e a população de ácaros no período. O momento em que ocorre a mais baixa população de ácaros, entre junho e agosto, pode estar relacionado com o período onde foram registradas as mais baixas temperaturas da região (temperatura média = 17°C). Já, a segunda queda na população do Ácaro da Leprose, entre dezembro e março, pode estar relacionado com a colheita dos frutos e, principalmente, com maiores precipitações mensais acumuladas.

Com relação à distribuição de Ácaros da Leprose nos órgãos da planta de citros, o que se pode observar na variedade de meia estação ‘Pera Rio’, no pico de população de ácaros, entre os meses de agosto e setembro, 90% dos ácaros foram encontrados nos frutos, enquanto que os outros 10% ficaram distribuídos entre ramos e folhas. Além disso, foi neste período que os frutos se encontravam com sua maturação mais avançada, sendo assim de diâmetros maiores. Após o início da colheita dos frutos, a distribuição da população de ácaros torna-se semelhantes em frutos e ramos, já nas folhas a população continua um pouco menor.

Para as variedades tardias, na região sudoeste, o período de junho até outubro e o mês de dezembro são os meses onde se encontram frutos com diâmetros maiores e neste período, 90% dos ácaros foram encontrados em frutos enquanto que os outros 10% estavam divididos entre ramos e folhas. Porém, este não foi o período com maior pico populacional de Ácaros da Leprose. Após o início da colheita dessas variedades, no mês de novembro, a distribuição da população de ácaros fica igualmente distribuída em frutos, ramos e folhas.
Quando se analisa a frequência da população de ácaros nos setores verticais da copa (inferior, médio e superior), não se observa diferenças significativas para nenhuma das variedades durante o período das avaliações.

Na análise da frequência de Ácaros da Leprose nos setores horizontais (externo e interno), na variedade ‘Pera Rio’, de meia estação, não foram observadas diferenças significativas em cada mês do ano. Nas variedades tardias, na região sudoeste do estado, ocorrem diferenças significativas apenas nos meses de janeiro quando os ácaros foram observados somente nos ramos e na parte externa da copa. Nos meses de abril e julho a frequência de ácaros foi maior no setor interno da copa. Como não ocorre gradiente de transição na frequência de ácaros de um setor para o outro durante o período, não foi possível encontrar uma explicação razoável para as diferenças encontradas.

Conclui-se desta forma que durante o ano a flutuação do ácaro é variável, dependendo da variedade de laranja (época de maturação e sobreposição de florada) e das condições climáticas locais. Em períodos com maior precipitação pluviométrica e maior umidade relativa, a população do Ácaro da Leprose é menor.

Os frutos que se encontram próximos da maturação são os locais preferidos pelos ácaros, sendo estes os órgãos que devem ter a preferência no momento das amostragens, logo depois devem ser feitas amostragens em ramos e depois em folhas.

As falhas de aplicação de acaricidas que ocorrem durante o controle do Ácaro da Leprose fazem com que os mesmos se aloquem preferencialmente na parte interna e superior da copa das plantas. Isto é comumente observado em pomares comerciais. Em condições naturais sem a aplicação de acaricidas ao longo do ano e de acordo com os resultados apresentados, conclui-se que o Ácaro da Leprose dos Citros coloniza de igual forma todos os setores verticais e horizontais da laranjeira.

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60ª edição

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