Cobre no cinturão citrícola:  além do uso fitossanitário

Cobre no cinturão citrícola: além do uso fitossanitário

Dr. Franz W.R. Hippler

Pós-doutorando do CCSM-IAC

fwhippler@gmail.com
Dr. Rodrigo M. Boaretto

Pesquisador do CCSM-IAC

Dr. José A. Quaggio

Pesquisador do CCSM-IAC

Dr. Dirceu Mattos Jr.

Pesquisador do CCSM-IAC

 

Levantamento realizado por pesquisadores do Centro de Citricultura Sylvio Moreira e do Centro de Solos e Recursos Agroambientais, do IAC – Instituto Agronômico, demonstra aumento expressivo da concentração de cobre nos pomares do cinturão citrícola, tanto nas árvores como no solo

O cobre (Cu), elemento mineral essencial para as plantas, desempenha importante papel no metabolismo celular, associado à fotossíntese, produção de lignina e proteínas e atividade antioxidante e, por isso, deve ser adequadamente suprido pelas adubações das culturas. Na citricultura, é também aplicado como defensivo, dado seu efeito protetivo e preventivo a diversas doenças foliares e de frutos, como o cancro cítrico.

Sintomas do Cobre

Neste contexto, verificam-se dois cenários nos quais o cobre tem ganhado a atenção dos citricultores. No primeiro, a ocorrência de sintomas visuais da deficiência de cobre tem sido observada em pomares recém-plantados e jovens, estabelecidos em solos com baixos teores deste nutriente e/ou devido a aplicações de doses mais elevadas de fertilizantes nitrogenados. Por outro lado, no segundo cenário, em pomares mais velhos (>4 anos de idade), a toxicidade pode ocorrer devido ao uso excessivo de fungicidas cúpricos no programa de manejo fitossanitário das plantas. Neste caso, o acúmulo do metal tende a ocorrer tanto no solo quanto na planta. Destaca-se também que a utilização de cobre nos pomares tem sido significativa, com o aumento atual da incidência de cancro cítrico nas várias regiões de produção.

A partir do banco de dados do Laboratório de Fertilidade do Solo do IAC, os dados de cerca de 5,6 mil amostras de folhas e de 5 mil amostras de solo (camada de 0-20 cm de profundidade), e de propriedades do cinturão citrícola de São Paulo e sul de Minas Gerais, de 2016, revelaram grande número de áreas comerciais com teores de cobre considerados de altos a excessivos para ambas amostras.

Nas folhas, os níveis considerados adequados para citros estão entre 10 e 20 mg kg-1 de Cu. Desse levantamento, a região norte apresentou a menor frequência de amostras (cerca de 24% daquelas locais) com teores acima de 30 mg kg-1 de Cu nas folhas, enquanto que as regiões centro e sul apresentaram teores mais elevados (com quase 90%). Nessas duas regiões, verificou-se amostras com teores de cobre nas folhas de aproximadamente 600 mg kg-1 de Cu.

A faixa de teores de cobre no solo considerados adequados para citros está entre 2,0 e 5,0 mg dm-3 de Cu (extraído em DTPA). Do mesmo levantamento, verificou-se que as regiões centro e sul foram as que apresentaram maiores frequências de amostras com resultados da análise mostrando teores acima daqueles considerados adequados para os citros (cerca de 64% na região centro e 71% para o sul). De forma similar as folhas. Foram identificadas amostras das regiões centro e sul com teores altos no solo, de 23 e 34 mg dm-3 de Cu, respectivamente.

Esses aumentos nos teores de cobre revelados pelas análises de folhas e solo, principalmente nas regiões centro e sul, podem estar diretamente relacionados ao aumento na incidência da pinta preta nos últimos anos nestas regiões, enquanto que na região sudoeste e parte da noroeste seriam devidos principalmente à incidência de cancro cítrico. Sob pressão do cancro cítrico, o uso de fungicidas cúpricos pode ainda aumentar com a entrada em vigor da nova legislação de controle da doença no estado de São Paulo, conforme Instrução Normativa Nº 37 do Mapa – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A legislação tem como base o controle do cancro por meio do sistema de mitigação de risco, no qual os produtores deverão utilizar de medidas de manejo que aumentem os níveis de prevenção da chegada da doença, bem como na manutenção da incidência da doença em níveis baixos.

Por outro lado, nas regiões norte e sudoeste, foram verificadas as maiores frequências de amostras de folhas (cerca de 18% das amostras locais) com teores considerados baixos para os citros. Apesar de pouco expressivos, os sintomas de deficiência de cobre também podem ocorrer em regiões onde o uso de fungicidas cúpricos é pouco utilizado devido à baixa incidência de doenças.

É importante lembrar que o cobre, além de ser considerado um elemento essencial para o crescimento das plantas, é também um metal pesado e, assim, numa condição de excesso pode ser danoso tanto para a planta como para o ambiente.

Estudo realizado recentemente no Centro de Citricultura Sylvio Moreira constatou que tanto na deficiência como na toxicidade de cobre há aumento nos níveis de estresse oxidativo nas plantas, que resulta em danos a processos fisiológicos e bioquímicos, bem como ao estado nutricional. O cobre é absorvido tanto pelas raízes como pelas folhas e é acumulado no órgão que recebeu diretamente a aplicação do metal-nutriente.

Desta forma, ressalta-se a atenção extra que deve ser dada a estes dois cenários destacados aqui: deficiência de cobre nos pomares em formação – onde há reduzida ou nenhuma aplicação de fungicidas cúpricos, bem como em pomares sobre alta incidência de doenças – onde o uso de fungicidas cúpricos é essencial, mas que pode aportar níveis excessivos para a cultura, requerendo, em ambos, medidas orientadas de manejo para garantir o bom desenvolvimento e produção dos citros.

Gráfico do cobre no cinturão citrícola

61ª edição