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Principais influências sobre a qualidade de frutas cítricas

Danila Corassari

Engenheira Agrônoma

danilacorassari@gmail.com

 

Devido à importância de se produzir cada vez mais frutas de qualidade, Amílcar Duarte, professor da Universidade do Algarve, esclarece os diversos fatores ambientais e de manejo que afetam a qualidade de frutas cítricas, em palestra realizada no Fundecitrus, em fevereiro de 2017

A produção qualitativa de frutos cítricos é tão ou até mais importante do que a produção de forma quantitativa. A qualidade pode ser definida, segundo Amílcar Duarte, professor auxiliar da Universidade do Algarve, Faculdade de Ciências e Tecnologia, como “o conjunto de propriedades inerentes a uma coisa, que permitem apreciá-la como igual, melhor ou pior que as restantes da sua espécie, enquanto a qualidade de um produto é o conjunto das características que determinam o seu valor por parte do consumidor e que correspondem à sua normativa legal”.

Em citros, a qualidade do produto depende do destino da fruta, ou seja, se esta é direcionada à indústria, os principais fatores de qualidade são o conteúdo de suco e açúcar, enquanto para a comercialização de fruta fresca, os parâmetros de qualidade dependerão do mercado em que a fruta será vendida cujas exigências poderão ser evoluídas com o decorrer do tempo.

“Os principais fatores determinantes da qualidade de produção são a relação entre a fertilidade do solo, os fatores climáticos, o estado nutritivo da planta, a espécie e cultivar, a produtividade, o valor nutritivo do produto, o modo de produção e o impacto ambiental”, aponta Amílcar.

No mercado de frutas frescas, a qualidade é determinada exclusivamente pelos seguintes parâmetros:

Tamanho do fruto

O tamanho do fruto é um dos principais parâmetros de qualidade. “Podemos dizer que o mercado não aceita frutos pequenos, nem demasiado grandes”, afirma o professor Duarte.

Este parâmetro de qualidade pode ser influenciado por diversos fatores como a escolha de variedades copa e porta-enxertos, modo de produção (orgânico ou convencional), quantidade de folhas e frutos no pomar, intensidade de floração, irrigação e adubação.

A escolha da variedade afeta diretamente o tamanho do fruto, principalmente em tangerinas. Quanto ao modo de produção, a tendência geral é que o modo orgânico produza frutas com peso inferior.

Plantas que apresentam menor quantidade de folhas por ramo tendem a produzir frutas de menor tamanho e cor mais clara, e geralmente quanto maior for a produção menor será o peso da fruta.

Quando à intensidade de floração, se o pomar apresentar alta quantidade de flores, o tamanho da fruta será afetado, pois a dimensão do ovário na antese está inversamente relacionada com o número de flores, ou seja, quanto mais flores houver, menor será o ovário destas. Se o tamanho do ovário na abertura da flor for elevado isso se traduzirá em um crescimento inicial mais rápido do fruto e no aumento do seu tamanho final. “Quando há menos de 20 flores em cada 100 nós, obtém-se pouca fruta, porém um florescimento muito acima de 20 flores por 100 nós refletirá em frutos de baixa qualidade”, comenta o professor.

A irrigação também está intimamente relacionada ao tamanho da fruta, já que o estresse hídrico ocasiona redução neste parâmetro, enquanto a irrigação excessiva tende a reduzir a qualidade. da fruta.

A fertilização também está relacionada ao tamanho do fruto, pois deficiências graves de nutrientes reduzem a produtividade e a qualidade do fruto, e, além disso, o nitrogênio tende a reduzir o tamanho e peso da fruta.

As principais técnicas, visando aumentar, a dimensão de frutas citadas por Amílcar Duarte são o desbaste e a monda de frutos (processo seletivo), além da aplicação de reguladores de crescimento.

Teor de suco

A qualidade de frutas cítricas apresenta relação direta com o teor de suco, sendo que quanto maior for este parâmetro mais elevada tende a ser a qualidade do produto. Para que os frutos possam ser comercializados, estes necessitam ter um teor de suco mínimo previsto pela norma de qualidade de acordo com cada espécie.

O teor de suco é influenciado: pelo tamanho do fruto, ou seja, quanto maior o tamanho, menor será o teor de suco; e pela adubação, uma vez que o fósforo tende a aumentar o teor de suco e reduzir o tamanho do fruto, sendo que o inverso ocorre quando há altos níveis de potássio.

Forma do fruto, porcentagem de casca e acidentes fisiológicos da casca

A colheita pode ser desvalorizada quando há deformidades no fruto que não características da espécie. Fatores como a idade da planta e o clima podem afetar a forma do fruto e a rugosidade da casca. Além disso, doenças e pragas também ocasionam deformidades bem como a aplicação excessiva do hormônio auxina.

A porcentagem de casca apresenta relação com a variedade e com a adubação. A carência de nitrogênio resulta em frutos de menor tamanho e com a casca mais delgada, por outro lado, a falta de fósforo ocasiona o aumento da espessura da casca, entretanto, frutos de casca fina são os mais preferidos pelo mercado.

Outro aspecto apresentado pelo professor Amílcar Duarte que afeta a espessura da casca, diz respeito ao modo de produção, no qual o orgânico, de forma geral, resulta em espessura de casca inferior quando comparado ao modo convencional.

Quanto aos acidentes fisiológicos da casca, podem ser devidos à presença de manchas, porém neste caso, normalmente a qualidade interna do fruto não é afetada, ou devido ao empolamento, ou seja, à separação entre a casca e a polpa. Os acidentes fisiológicos da casca ocorrem como consequência do clima, desequilíbrios na fertilização e suscetibilidade de espécies e cultivares, porém com a aplicação de ácido giberélico no momento de mudança da cor do fruto, é possível corrigir estas alterações.

Deterioração das vesículas de suco, textura da polpa e cor da casca e da polpa

A deterioração das vesículas de suco corresponde à granulação dos frutos que provoca um sabor insípido, uma vez que o teor de açúcares e ácidos livres é reduzido. Geralmente, a deterioração das vesículas de suco ocorre em frutos de maior tamanho.

A textura da polpa apresenta relação com a densidade do fruto, sendo que frutos de má qualidade possuem densidade inferior a 0,85. A textura da polpa também varia em função da variedade e clima.

Quanto à cor da casca e polpa, o mercado consumidor prefere frutos mais alaranjados, porém a cor da fruta depende da zona de cultivo (quanto mais frio, mais alaranjada será a fruta). A fertilização também influencia a cor, principalmente quando há excesso de adubação nitrogenada, pois esta gera atraso na mudança de cor favorecendo o reverdecimento da fruta.

Qualidade do fruto relacionado ao teor de açúcar, acidez, relação entre açúcar e acidez, e aroma
Para Amílcar Duarte esses fatores de qualidade são pouco valorizados, já que apenas o índice de maturação, que é a relação entre Brix e acidez, é avaliado e deve atingir um valor mínimo, dependendo da variedade, para a exportação.

Além do porta-enxerto utilizado, a irrigação também influencia o sabor da fruta, pois esta aumenta o conteúdo de suco e índice de maturação, reduz o teor de sólidos solúveis totais e a concentração de ácido, aumenta o tamanho e peso do fruto, e eleva a quantidade de frutos verdes na colheita, entretanto, reduz a espessura da casca.

A fertilização é outro fator que afeta o sabor de frutos cítricos, visto que o fósforo reduz a concentração de ácido, aumenta o número de frutos verdes e reduz a espessura da casca, enquanto o potássio aumenta a produção de frutos e o teor de sólidos solúveis por hectare, diminui o teor de suco, e cor do suco, eleva o teor de ácido e aumenta o tamanho do fruto, peso e espessura da casca. O magnésio eleva o teor de sólidos solúveis por caixa e o tamanho do fruto, entretanto, reduz a espessura da casca.

Amílcar também enfatizou, com base em estudos científicos, que a aplicação de hormônio, no caso o 2,4-D, tem efeito no teor de sólidos solúveis de citros, podendo acarretar uma redução neste teor.

O modo de produção convencional ou orgânico, igualmente aos demais fatores citados, está relacionado ao sabor da fruta cítrica, a qual a produção convencional tende a apresentar, de forma geral, menor acidez e menor teor de sólidos solúveis totais (Brix), quando comparada à produção orgânica.

Fatores nutritivos

Apesar dos fatores nutritivos serem pouco considerados, alguns frutos cítricos são valorizados pelo seu alto teor de vitamina C. “Houve diminuição no teor nutritivo de frutas cítricas, com exceção da vitamina C, que aumentou no decorrer dos anos” afirma o professor Amílcar.

O teor de vitamina C no modo de produção convencional tende a ser 28% menor em comparação à produção orgânica. Reduções nos demais ácidos (cítrico, málico, tartárico, e malônico) também ocorrem na produção convencional em relação à produção orgânica, exceto pelo ácido oxálico, cujo teor tende a ser maior na agricultura convencional.
Contudo, esse este ácido não é considerado nutritivo.

Presença de defeitos e restos de pragas

Frutos cítricos podem ser desvalorizados devido a defeitos provocados, muitas vezes, pelo roçar de ramos, picadas dos espinhos presentes no pomar ou até mesmo pela presença de pragas, como as cochonilhas.

Fatores extrínsecos de qualidade

Os fatores extrínsecos de qualidade estão relacionados com o ambiente em que o produto está inserido. “Os principais fatores extrínsecos de qualidade são a homogeneidade, tamanho e cor dos frutos, tipo de embalagem, decoração de frutos e da embalagem e facilidade de consumo, como laranjas descascadas, por exemplo”, finaliza Amílcar Duarte.

61ª edição