Além de serem fontes de inóculo, plantas adultas contaminadas com HLB apresentam alta progressão dos sintomas da doença e perdas significativas na produção
Além de serem fontes de inóculo, plantas adultas contaminadas com HLB apresentam alta progressão dos sintomas da doença e perdas significativas na produçãoHumberto Vinícius Vescove

Progresso da severidade dos sintomas de HLB e redução da produção de laranjeiras adultas: Riscos de manter uma planta doente no pomar

Renato Beozzo Bassanezi

Fundecitrus

 

O Huanglongbing (HLB) é considerado um fator limitante para a produção de citros nos locais onde ocorre. Ainda hoje não existem métodos práticos e economicamente viáveis para curar as plantas doentes no campo em larga escala e todas as variedades comercias de laranja são igualmente suscetíveis à doença. A ausência de controle das fontes de inóculo da doença, isto é, de plantas doentes e do psilídeo portador da bactéria do HLB, favorecem a ocorrência de novas infecções e o rápido progresso da incidência de plantas doentes nos pomares.

Embora seja altamente recomendada a eliminação das plantas com sintomas de HLB nos pomares, alguns produtores sentindo-se incapazes de controlar o avanço da doença, pensando apenas em curto prazo e não querendo perder a produção das plantas doentes, principalmente de plantas adultas, optam por conviver com estas plantas mesmo que contra a Instrução Normativa Federal n.53 de 16/10/2008 do MAPA em vigor.

A pergunta que se faz então é a seguinte: quanto tempo leva para que uma planta deixe de ser produtiva após o aparecimento dos primeiros sintomas de HLB? No caso de plantas cujos sintomas se manifestam nos primeiros 2 ou 3 anos de plantio, sabe-se que em mais um ou dois anos a planta estará totalmente tomada pelos sintomas da doença e nem chegará a produzir economicamente. Entretanto, pouco se sabe, nas nossas condições, do tempo que leva para uma planta adulta, entre 8 a 12 anos de plantio, tornar-se improdutiva. Também não se sabe se haverá diferenças no progresso da severidade dos sintomas (% de copa da planta tomada pelos sintomas de HLB) e queda de produção em plantas das principais combinações copa/porta-enxerto utilizada na citricultura brasileira.

Desta forma, foram conduzidas avaliações em talhões de diferentes combinações copa/porta-enxerto, com plantas entre 8 a 12 anos de plantio. Em cada talhão foram selecionadas 30 plantas com sintomas iniciais da doença (menos de 10% da copa com sintomas) e mensalmente foi avaliada a severidade da doença. Na época de colheita, as plantas selecionadas foram colhidas individualmente e a sua produção comparada com a produção média de 20 plantas sadias (sem sintomas de HLB) selecionadas ao acaso no mesmo talhão.

Este trabalho foi conduzido por quatro anos em 12 talhões de duas propriedades com frequente controle do psilídeo e bom manejo nutricional, nas seguintes combinações: laranja Hamlin/limoeiro Cravo (1 talhão), Hamlin/citrumelo Swingle (3), Hamlin/tangerina Cleópatra (1), laranja Pera/Cravo (1), Pera/tangerina Sunki (2), laranja Valência/Cravo (1), Valência/Volkameriano (1), Valência/Swingle (1) e Valência/Cleópatra (1).

De maneira geral, no primeiro ano após o aparecimento dos sintomas da doença, os sintomas atingiram em média 8% da copa das plantas, resultando em uma produção em média 8% menor em relação às plantas sadias. No segundo ano, a severidade média da doença foi de 24% e a produção nestas plantas 32% menor que das plantas sadias. No terceiro ano, a severidade média alcançou 39% da copa das plantas e a produção foi reduzida em média 59%.
No quarto ano, os sintomas continuaram evoluindo na copa das plantas e atingiram em média 47% da sua área, levando a uma redução de produção semelhante a do ano anterior, 59%. Não foram observadas diferenças significativas entre as variedades de copa e os porta-enxertos para as variáveis de progresso da severidade da doença e queda de produção.

Em um outro trabalho, conduzido em um pomar de laranja Valência/Cravo com 8 anos de plantio, para avaliar o efeito de oito diferentes tratamentos nutricionais no progresso da severidade dos sintomas de HLB e na produção de plantas doentes, os resultados foram semelhantes. Após seis anos de avaliações, nenhum dos tratamentos reduziu a evolução dos sintomas de HLB na copa das plantas doentes e impediu a queda na produtividade destas plantas. No primeiro ano após o aparecimento dos sintomas, a severidade atingia em média 13% da copa das plantas e a produção foi 15% menor que a das plantas sadias. No segundo ano, a severidade média evoluiu para 35% e a queda de produção média para 45%. No terceiro ano, mesmo mantendo uma severidade média similar à do ano anterior (33%), a queda em produção foi ainda maior (64%).

No quarto ano, cerca de 67% da copa das plantas estava com sintomas da doença e a produção 63% menor que a das plantas sadias. No quinto e sexto ano, a severidade média no momento da colheita era de 55% e 72%, respectivamente, e a produção das plantas doentes 75% menor que a média de produção das plantas sadias nos dois anos.

Estes resultados indicam que o progresso da severidade dos sintomas de HLB e a queda de produção em plantas adultas são mais rápidos do que se imaginava anteriormente. Em apenas quatro anos após o aparecimento dos sintomas nestas plantas, os mesmos chegam a tomar cerca de metade da área da copa, reduzindo a produção em aproximadamente 60%.

Assim, deve-se pensar bem sobre as consequências de se deixar plantas com HLB no campo no médio e longo prazo. O citricultor que opta por isto pode ter um resultado positivo apenas no curto prazo, pois sabe que o aumento da severidade dos sintomas nas plantas é inevitável e em poucos anos a produção destas plantas será bastante reduzida, além de ser de menor qualidade, o que o colocará para fora da citricultura. Atuando assim, a incidência de plantas com sintomas no campo irá aumentar com o passar dos anos, causando um aumento da quantidade de fonte de inóculo, tanto na sua propriedade como na região. Aumentando a fonte de inóculo, aumenta-se a dificuldade de renovação dos pomares, pois as plantas novas são mais suscetíveis à infecção (brotam mais) e aos danos da doença (uma vez infectadas jovens nem irão produzir).

Para tentar evitar que as plantas doentes sirvam como fontes da bactéria para novas contaminações e que as plantas sadias não sejam infectadas, aumenta-se a dependência do uso frequente de inseticidas e os seus possíveis efeitos colaterais como: riscos de intoxicação do ambiente e do homem do campo, presença de resíduos de pesticidas nos frutos e risco de seleção de populações de psilídeos resistentes aos inseticidas. Além disso, o aumento da fonte de inóculo exercerá uma maior pressão negativa sobre futuros materiais com certa resistência à doença que possam ser lançados no mercado, reduzindo a sua vida útil.

62ª edição