A irrigação ainda é uma ferramenta pouco explorada pelos citricultures no cinturão citrícola
A irrigação ainda é uma ferramenta pouco explorada pelos citricultures no cinturão citrícola

A produtividade e o futuro citrícola

décio Joaquim

Consultor Campo Consultoria/GTACC

deciojoaquim@uol.com.br

 

Geradora de renda e de empregos, a citricultura brasileira cumpre um papel social reconhecidamente importante. A produção de laranjas no país é responsável por um valor bruto anual superior a R$ 7,5 bilhões, oferecendo mais de 200 mil empregos diretos e indiretos, com grande potencial de geração de riqueza para os municípios, ofertando 1 emprego direto para cada 9 hectares plantados e confrontando a cana de açúcar que, apesar de ocupar uma área bem maior, gera apenas, 1 emprego a cada 80 hectares. A citricultura nacional é uma atividade tradicional e seus pomares são responsáveis por 34% da produção mundial de laranja, por 57% da produção mundial de suco e por 79% do comércio exterior desse produto (REVISTA CITRUSBR, 2017).

Distribuída comercialmente pelas cinco regiões brasileiras, a citricultura concentra-se no Sudeste, especialmente no estado de São Paulo, que detém 85% da laranja nacional (ALMEIDA & PASSOS, 2013). De acordo com o FUNDECITRUS (2017), a cultura da laranja ocupa 415 mil hectares de terras em São Paulo e no triângulo/sudoeste mineiro, abrigando 191,7 milhões de plantas, com uma produção estimada (e divulgada pela entidade em 10/05/2017) de 364,5 milhões de caixas de 40,8 kg, para a safra que está sendo colhida atualmente.

Mas, se por um lado os números expressam motivos de júbilo, são também responsáveis pela evidência clara de que exigem cada vez mais profissionalismo das fazendas e dos produtores, na busca por melhores patamares produtivos, que consigam equilibrar os crescentes custos anuais da produção. Os desafios estão constantemente sendo lançados e as gestões devem se organizar (RODRIGUES, 2017).

Desafios

Ao se deparar com a temática “novos desafios para a citricultura”, o interessado logo imagina uma combinação de equipamentos e ideias futuristas que permeiam o imaginário das gerações atuais. A tecnologia e a informação, quando bem utilizadas, fazem a diferença e devem ser empregadas na lida diária dos pomares, atuando em prol da melhoria da produtividade. Mas, produzir mais por área, buscando tirar melhor proveito de cada propriedade, passa ainda por um aprimoramento profissional que se inicia nos recônditos da formação como agricultor, substituindo distorcidos paradigmas e erradas tradições culturais, que contrariam conceitos básicos de fisiologia, nutrição e horticultura, e impossibilitam às plantas condições para demonstrar sua potencialidade produtiva.

O presente e, particularmente, o futuro, exigem produtividade. A estrutura competitiva excluirá a possibilidade da coexistência com produtores inoperantes, não atentos aos patamares mínimos de produção. E frequentar os mercados agrícolas disputando ganhos viáveis, apenas será possível àqueles dotados de capacidade administrativa, gerencial e produtiva. Essas, sim, representam verdadeiramente os novos e grandes desafios da atividade.

As boas práticas de gestão na fruticultura são tão necessárias quanto em qualquer outra atividade comercial organizada. O planejamento sobre como comprar e vender, o controle dos custos e a efetividade produtiva, contribuem diretamente para a obtenção do sucesso na administração dessa difícil “empresa a céu aberto”, sujeita às intempéries climáticas e financeiras (REVISTA HORTIFRUTI BRASIL, 2016).

Os nós do desconhecimento devem ser desatados para se alcançar resultados melhores. A barreira da falta de interesse em evoluir deve ser transposta. A busca de aprimoramento deve ser constante. O produtor deve procurar conhecer mais sobre a cultura, pois desse seu aperfeiçoamento resultarão soluções para o manejo diário do pomar.

O aumento nos custos de produção e no número de problemas fitossanitários, aliados à manutenção de uma produtividade apenas relativa, fizeram com que o produtor se obrigasse a uma verdadeira revolução de valores para a continuidade na citricultura. O tamanho médio dos pomares paulistas, que em 1983, não passava de 30 hectares (AMARO, YAMAGUISHI & BARROS, 1983), foi ampliado, em 2017, para 53 hectares (FUNDECITRUS, 2017), mostrando que não é mais possível manter o mesmo padrão econômico com a mesma área de outrora.

Outro fator de produção que ainda é pouco explorado é a irrigação. Segundo o FUNDECITRUS (2017), apenas 24% da área plantada em São Paulo é irrigada. Isso ainda é muito pouco para conviver com as atuais disfunções do clima, predominando a falta de chuva e calor acentuado em grande parte do Estado, comprometendo severamente a produção.

Autômatos agrícolas

Atualmente, a modernidade pode ser retratada enumerando-se uma série de recursos técnicos, nem todos de fácil acesso para ser empregados pela maioria dos citricultores. Estes recursos trazem para o campo benefícios desenvolvidos pela alta tecnologia, que, sem dúvida alguma, prova a eficácia das possibilidades deste século na tentativa de ampliar o leque de instrumentos voltados ao desenvolvimento da produção.

O mundo da robótica escala os primeiros seres autômatos para a execução de vários serviços no pomar. Desde a colheita, passando pela avaliação da fertilidade do solo, identificação de pragas e doenças e estimativa de safra, são os robôs que se encarregam de desempenhar estes papeis. Pulverizadores dotados de laser e ultrassom controlam a aplicação de insumos sobre as plantas. A internet chega, quase, a proclamar a independência dos tratores na marcação e implantação de novos pomares através do piloto automático orientado por satélite, graças ao GPS – sistema de posicionamento global – como anteriormente já vinha sendo empregado em outras culturas.

Benefícios da alta tecnologia podem ser obsevados em campo na citricultura
Benefícios da alta tecnologia podem ser obsevados em campo na citricultura

Mais recentemente, o emprego dos drones e sua particular característica de voar, favoreceu o mapeamento remoto, o transporte de pequenos objetos, o monitoramento fotográfico, o controle de pragas e doenças, e a soltura de inimigos naturais. Nos dias de hoje, já é possível determinar a qualidade interna das frutas sem cortá-las; portar óculos que conseguem enxergar folhas doentes; esquadrejar a aplicação nutricional de forma remota; promover a aplicação terrestre de defensivos usando a tecnologia eletrostática, que energiza as gotinhas pulverizadas, fazendo com que sejam eletricamente atraídas pelas plantas. As novidades tecnológicas não cessam, sendo criadas aos montes e divulgadas rapidamente por todo o mundo, que atualmente está interligado por uma rede de conhecimento, capacitação e empreendedorismo, nunca antes vista.

Por outro lado, os recursos elitizados e de alto custo de aquisição ou de implantação, constituem-se momentaneamente em vantagens isoladas para alguns, que normalmente detém grandes áreas e se beneficiam dos altos rendimentos operacionais oferecidos por essas tecnologias, constituindo-se, porém, na maioria das vezes, em aperfeiçoamentos de ideias ou melhorias técnicas para resolver velhas questões já existentes. Fica a pergunta: qual a influência direta sobre a produtividade dos pomares?

Independentemente dos preços praticados ou dos problemas fitossanitários que possam visitar a cultura, o grande e contínuo desafio permanecerá sendo a obtenção de produtividades crescentes. Perante uma agricultura que se constrói voltada à replicação de modelos e à generalização de resultados, conclui-se que, de fato, a verdadeira revolução está na sabedoria de se obter ganhos crescentes de produtividade, a partir da utilização mais apropriada dos recursos comuns, acessíveis a todos os produtores, disponíveis e empregados por todos. É o que se pode entender como o Manejo Inteligente.

Manejo inteligente

Inicialmente, como ponto de partida para essa prática, deveríamos avaliar quais as vantagens – ou desvantagens – de continuar a empregar o atual sistema de produção baseado em árvores de copas imensas, que custam mais para serem tratadas e colhidas, oferecendo um retorno questionável em termos de produção por metro cúbico de copa. Nesse ponto, a utilização da poda é uma interessante ferramenta para equalizar a questão em relação aos pomares existentes, mas a discussão deve ser mais ampla, propondo formas diferentes da implantação e condução de novos pomares, como o plantio em haste única ou a condução em espaldeira, por exemplo, o que facilitaria muito a execução das práticas culturais, em especial a da colheita mecânica, aumentando a densidade de plantio e ampliando a produtividade por área.

Mas não será a forma de condução das plantas que impedirá a adoção do Manejo Inteligente. Seguem várias sugestões para compor um quadro de medidas viáveis e pertinentes, passíveis de serem postas em prática, com o objetivo único de aumentar a produtividade. Essa proposição, do Manejo Inteligente, parte do princípio de que a maioria de suas práticas seriam possíveis de serem implementadas em todos os pomares – desde que se tenha a intenção de fazê-lo – bastando, apenas, a adequação de tratos culturais já praticados.

Começando pelo planejamento do plantio, muitas práticas comuns poderiam ser melhores ajustadas, com benefícios quase imediatos. Qual a quantidade de árvores a se plantar? E de quais variedades? Evidentemente que as respostas vêm baseadas na área disponível para a atividade e na condição econômica do produtor. Procurando uma elucidação mais técnica para as perguntas, prioritariamente, as respostas deveriam estar embasadas, também, na determinação de certos parâmetros, como um pretenso módulo mínimo de plantas de acordo com o valor do custo fixo do empreendimento, o que viabilizaria a utilização de mão de obra e a aquisição de equipamentos. Além disso, procurar a orientação regional para o escalonamento comercial das variedades, procurando uma distribuição porcentual mais adequada entre as precoces, de média estação e tardias, prospectando as áreas da propriedade para a melhor adaptação de cada uma delas, importando-se em conhecer previamente os rendimentos de peso e qualidade interna que se obtém nas condições edafo-climáticas em questão.

A produtividade é a arma mais eficiente contra preços baixos
A produtividade é a arma mais eficiente contra preços baixos

Avançando no processo de instalação das plantas, a formação inicial das raízes – tradicionalmente menosprezada pela maioria dos citricultores – definirá a condição produtiva de toda a vida do pomar. A maior concentração de raízes dará origem a uma ramificação radicular determinante para melhor aproveitar o adubo que é um importante componente do custo da atividade. Para isso, é fundamental o preparo do solo em que se depositará a muda. Parâmetro tão básico, muito difundido e pouco executado. Promover todas as operações necessárias que favorecerão a física do solo para colher resultados por toda a vida do pomar. Corrigir quimicamente a área, procurando proporcionar condições para a ação eficaz da calagem, da gessagem, adequando os níveis catiônicos do solo, e a consequente elevação do pH. São todas práticas essenciais para a manutenção de um negócio que deverá perdurar por anos. Mas, depois disso, a utilização de Fósforo na implantação se traduzirá na fonte de energia primária para o desenvolvimento almejado.

Evidente, também, que é por demais conhecida a importância da genética do material vegetal que se irá utilizar. Da copa e do porta enxerto. A seleção de uma progênie oriunda de material bastante produtivo, tem maior probabilidade de produzir mais. Em função disso, no campo, a uniformidade do comportamento produtivo entre as plantas de qualquer parcela, retrata, além da carga genética que foram constituídas, a qualidade do manejo do seu viveiro de origem.

Se, comercialmente, além dos cuidados fundamentais na produção de ótimas mudas, elas pudessem ser resultantes da “cabeceira” do processo produtivo, ou seja, se fossem aproveitados inicialmente apenas os primeiros “cavalos” a germinar entre as sementes do porta-enxerto e, se, além disso, fosse possível formar um talhão apenas das mudas que primeiro brotassem após a enxertia, o resultado seria um aumento da ordem de 20% a 30% em termos de produção, conforme já observamos.

Stand

A noção de stand e sua importância, é facilmente compreendida pelo produtor de cereais. Procurar fazer com que determinada área seja ocupada por um determinado número de sementes é preocupação básica para eles. Na citricultura, é uma prática pouco difundida. Evidente que o espaço deixado pela ausência de uma planta será percebido, porém não é comum a todos a necessidade premente de replantar, pelas dificuldades e custos que isto representa. Na prática, a falta dessa planta não se corrigirá apenas pela adoção de um maior adensamento de plantio, uma vez que aquela “falha” não gerará receita, impondo custos. Da mesma forma que a falta de stand não se caracteriza apenas por essa mazela.

Independentemente do sistema de condução a ser adotado, pode-se afirmar que a melhor ocupação da área do pomar leva em consideração, não apenas a ocupação do terreno, mas, particularmente, a melhor ocupação produtiva da planta. Criar pontos de florescimento deveria ser o maior objetivo de quem cultiva citros. Buscar preencher a copa da planta por um número proporcional de frutos parece uma proposta banal, corriqueira, mas que, em verdade, é deixada de lado e fica por conta do acaso pela grande maioria dos produtores, que não interferem no processo. A poda contínua, desde a formação da planta, faz esse mister.

Deve-se procurar conduzir a arquitetura da planta desde muito jovem para aumentar as primeiras produções, podar para que a planta receba sol e para forçar a formação de um maior volume de ramificações produtivas, procurando acelerar o período de juvenilidade e minimizar a existência de ramos dominantes. Estes ramos, em certas variedades, assumem uma expressão muito representativa dentro da copa, tomando a energia que deveria ser empregada para a formação de flores. Os chamados “ramos ladrões” não são unicamente aqueles formados a partir do porta-enxerto. Devem ser extintos. Sua exclusão na fase juvenil da planta não garante a eliminação de sua ocorrência posterior, mas favorece a antecipação da produção e a formação de uma base para a copa que apresentará reflexos por toda a vida da planta (JANICK, 1968).

Definição das safras

A partir da idade produtiva cabe ao produtor conhecer o ciclo fisiológico anual das plantas cítricas. É ele que pode determinar os melhores momentos para adubar, podar e irrigar. São três procedimentos determinantes para aumentar ou para prejudicar a safra vindoura.

No final do outono, quando as frutas pendentes da safra gerada na primavera anterior começam a amadurecer, tem início um novo ciclo de produção. As células das gemas de ramos maduros iniciam seu processo de multiplicação – a chamada indução – paralelamente à redefinição do dreno principal dos fotoassimilados, que deixam de ser àquelas frutas e passam, momentaneamente, a ser o sistema radicular, a fim de acumular reservas para a diferenciação floral que acontecerá no começo da primavera seguinte. Essas reservas aumentarão durante o inverno, favorecidas pela diminuição metabólica das árvores, devido ao período de estresse hídrico ou térmico, habituais daquela estação (PEREIRA et al., 2003).

Laranja

Portanto, a primeira parte dessa lição significa entender que no caso dos cítricos, a indução das gemas e a diferenciação floral são processos que ocorrem em épocas distintas, diferente das fruteiras de clima temperado. Assim, esses acontecimentos devem ser preservados e compreendidos como fundamentais na definição da produção anual, sendo prioritários em termos de adubação. Além deles, tão importante quanto, é o período do “pegamento”, ou seja, da fixação dos frutinhos após o desenrolar do florescimento, que é considerado também, como de significativo consumo energético (JOAQUIM, 2010).

O entendimento desses acontecimentos e a destinação de adubo – de fósforo e de nitrogênio, em particular – nesses momentos, faz toda a diferença em termos de definição da produção.

Da mesma forma, sabendo que esses processos são regidos pela ação dos reguladores vegetais, será contraproducente podar o pomar drasticamente desde o final do verão – portanto, antes da indução – até a plena floração. Explica-se, porque, ao cortar o ápice dos ramos através da poda em momento imediatamente anterior à indução (no final do outono) elimina-se a dominância apical (concentração maior de auxina), desencadeando a brotação lateral, que não teria tempo hábil para amadurecer até o momento chave da diminuição da luz outonal, “chegando verde” – imatura – no instante que seria destinado à indução (SPIEGEL-ROY & GOLDSCHMIDT, 1996).

PENTEADO (2010) corrobora com a recomendação quando afirma: “para as fruteiras tropicais e subtropicais, que têm folhas perenes, a melhor época para podar é depois da colheita e/ou então após o período do pegamento da frutificação. Nessas fruteiras, se for feito antes do florescimento a planta pode vegetar e não frutificar”.
É evidente que níveis diferentes de poda promoverão diferentes efeitos sobre a produção, o que é facilmente explicado pela maior quantidade de ramos que uma poda mais drástica poderia interceptar.

O manejo da irrigação também depende da compreensão dessa sistemática, pois dele se depreenderá o momento mais adequado para o início do fornecimento de água após o período seco do inverno, uma vez que as plantas necessitam acumular energia e, portanto, passar por um período mínimo de baixa atividade metabólica a fim de acumular carboidratos para o florescimento. O tempo de duração desse período é questionável, uma vez que dependerá de muitos fatores, como a umidade do solo, a evapotranspiração, a combinação copa/porta-enxerto, a carga pendente, o regime nutricional etc. O importante é saber que o momento da indução deve ser tomado como referência para essa determinação.

Atualmente, associada à ideia do acompanhamento nutricional através da metodologia que se denomina AP – Agricultura de Precisão, algumas empresas do setor oferecem fotografias tiradas de satélites destinadas à identificação da densidade foliar das culturas. No caso dos cítricos existe uma tentativa de correlacionar a situação observada em épocas diferentes, como por exemplo, com a produção. Mas, como relatado, não adiantaria levar em consideração apenas a indução, porque a diferenciação ou a fixação dos frutos (que acontecem posteriormente à indução) poderiam ser comprometidas por outro fator qualquer. Daí a importância de compreender que são ocorrências distintas, que acontecem em épocas diferentes.

Cachos e temporões

A limitação para a produtividade poderia estar relacionada diretamente, apenas, ao adensamento empregado no plantio? Sim e não. Evidentemente que, ao praticar espaçamentos de 18 m2 ou menores ainda, o produtor está impondo uma condição bem distinta da natureza exigida pelo gênero citros, talvez em torno de 50 m2 por árvore. Mas a compensação nutricional parece estender essas possibilidades, permitindo bons resultados em relação aos patamares da produtividade média atual, mesmo em pomares mais adensados.

A presença de expressivas colheitas de frutos fora de época ou temporões e as produções em pencas ou cachos, na maioria das conversas entre os produtores ficam associadas a uma ou outra variedade que acabam portadoras dessa fama. Mas observações práticas nos remetem a discussões mais amplas, caracterizando essas situações como resultado de uma maior disponibilidade de energia, aliada às condições genéticas. Senão, vejamos:

Algumas poucas variedades são consideradas reflorescentes, ou seja, apresentam maior facilidade para a emissão de flores ao longo do ano. É o caso típico da lima ácida ‘Tahiti’. Isso se dá pela menor necessidade de energia demandada para que ocorra diferenciação em uma parte das emissões de um eventual surto de brotações extemporâneas. Mas essa ocorrência acontece, também, em outras espécies cítricas, como em laranjas, limões e tangerinas, basta haver a coincidência entre brotações e sobra de energia.

A tendência será de uma profusão de frutos temporões em determinados anos, em que exista sobra de energia em função da diferenciação da primavera não ter sido favorecida ou, ainda, que por qualquer motivo não tenha acontecido um pegamento a contento da safra principal, mas que, prioritariamente, tenha ocorrido uma boa indução. As inúmeras condições da natureza, aliadas às realidades de cada pomar, resultarão na formação de flores através da diferenciação dos brotos temporões, originando frutinhos incidentais, cabendo ao produtor a missão de fixá-los.

Semelhante, é o caso dos cachos ou pencas de frutos. Além da predisposição genética de cada variedade, ramalhetes de flores envoltos por um maior número de folhas tendem a ter um pegamento de um maior número de frutos, quando em árvores mais adubadas. Ou seja: maior será o pegamento, inclusive de frutos em pencas, em plantas que têm maiores reservas nutricionais.

Nessa questão, é muito importante citar que a sobra energética ou essas ditas reservas não advenham, apenas, da quantidade de adubo a ser empregada, mas do momento da adubação e do tipo de adubo empregado. Naqueles anos favoráveis, a fixação de frutas temporãs será maior quando ocorrer a coincidência de uma parcela de adubação antes de um surto de brotação. Para que isso não se torne um jogo de sorte ou azar, o produtor pode lançar mão de certos adubos fosfatados que, protegidos por um complexo orgânico, resistem no solo, evitando a fixação química do fósforo por um tempo bem mais prolongado.

Outros desafios

Os desafios são muitos, mas a busca pela produtividade, também deve ser constante, afinal, a produtividade é a arma mais eficiente contra preços baixos. A novos ou velhos desafios, cabe ao produtor driblá-los. Atualmente, o HLB/Greening é, com certeza, o maior problema relacionado ao sistema produtivo. Várias são as medidas paliativas contra a doença, que ainda não tem um procedimento definitivo para ser estancada. Outras pragas, como o ácaro transmissor da Leprose, a Pinta Preta, inclusive o Cancro Cítrico, são contornáveis, enquanto que o HLB vem se caracterizando pelo acréscimo de prejuízos.

Outros desafios vão desde o afunilamento do número de empresas compradoras da fruta, passando pela legislação, oferta de crédito, assistência técnica deficitária, pelo processo da colheita – e a sua dependente necessidade de mão de obra – até à falta de defensivos mais específicos e apropriados para a cultura, como resultado da desmotivação financeira por parte das principais fornecedoras de insumos após a redução da área plantada de citros no país.

Na verdade, para vencer os novos e os tradicionais desafios, que são muitos e constantes, que se avolumam e tendem a frear o desenvolvimento produtivo dos citricultores, o mais importante é sair do lugar comum, ser contestador e não aceitar como resposta a máxima: “é assim mesmo”. Não se deixem influenciar pelos pensamentos acomodados que tentam impedir o sucesso de alguns para justificar a incompetência própria. Além disso, analisem e aproveitem a experiência alheia, mas tentando sempre filtrar e entender os reais motivos dos sucessos e dos fracassos, uma vez que excelentes técnicas podem ser influenciadas por sua má utilização ou por outros fatores.

*Palestra apresentada durante o XXV Congresso Brasileiro de Fruticultura, setembro de 2017, Porto Seguro, BA.

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63ª edição