Desafios e procedências diante da nova legislação para o cancro cítrico no Estado de São Paulo
Desafios e procedências diante da nova legislação para o cancro cítrico no Estado de São Paulo

Desafios e procedências diante da nova legislação para o cancro cítrico no Estado de São Paulo

Danila Corassari

Engenheira Agrônoma

danilacorassari@gmail.com

 

O Fundecitrus (Fundo de Defesa da Citricultura) e a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo promovem cursos para o esclarecimento da doença e as principais medidas a serem conduzidas frente à nova legislação. Muitos são os desafios, principalmente quando se trata da comercialização da fruta ‘in natura’.

A instrução normativa n° 37 publicada pelo Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em 6 de setembro de 2016, possibilitou que cada Estado se pronunciasse a respeito de seu status fitossanitário em relação à doença chamada cancro cítrico. Ou seja: passou a ser possível que cada um se enquadrasse em áreas classificadas como: área com praga ausente, área livre da praga, área sob erradicação ou supressão ou área sob sistema de mitigação de risco. Portanto, as estratégias de controle da doença devem ser adotadas de acordo com o status fitossanitário determinado por cada Estado.

Essa nova legislação permitiu que os estados de São Paulo e Paraná, por exemplo, que apresentam alta incidência de cancro cítrico, adotassem novas estratégias de controle da doença sem necessariamente fazer a erradicação da planta doente, conforme era previsto anteriormente pela portaria n° 291, de 1997.

Dessa forma, São Paulo se oficializou como área sob Sistema de Mitigação de Risco (SMR) com a publicação da Resolução SAA n° 10 feita pela Secretaria de Agricultura, que passou a vigorar em 4 de março de 2017. O principal objetivo do status fitossanitário SMR é reduzir o potencial de inóculo e o número de frutos contaminados na área.

Diante disso, tanto o Fundecitrus quanto a Secretaria de Agricultura, promoveram cursos e treinamentos a fim de capacitar citricultores, administradores de fazenda, engenheiros agrônomos e responsáveis pelas áreas de fitossanidade das propriedades agrícolas.

Lesão característica de Cancro cítrico em laranja.
Lesão característica de Cancro cítrico em laranja.

O primeiro curso foi realizado em Araraquara, na sede do Fundecitrus, no dia 20 de julho de 2017. A capacitação também foi desenvolvida nos municípios de Itajobi, São José do Rio Preto, Bebedouro e Lucianópolis. O treinamento foi ministrado pelo pesquisador da instituição, Dr. Franklin Behlau, que apresentou informações técnicas sobre a doença, além de abordar as novas estratégias de controle no Estado de São Paulo, frente à nova legislação.

O cancro cítrico é causado pela bactéria Xanthomonas citri subsp. citri, que tem como condições favoráveis para sua disseminação a água, o vento e a temperatura (25 a 35° C). A infecção, que ocorre pela penetração da bactéria na planta através dos estômatos ou de ferimentos, atinge ramos, folhas e frutos jovens.

Nas brotações, as fases mais críticas ocorrem quando elas estão no estágio fenológico V4, V5 e V6. Os frutos podem estar mais suscetíveis à doença quando apresentam de 5 a 50 mm de diâmetro, porém o período mais crítico é quando apresentam entre 10 e 30 mm de diâmetro.

Os principais sintomas do cancro cítrico são: o surgimento de pústulas marrons e pardas – que podem apresentar um halo amarelado na maioria das vezes –, o escurecimento da lesão, saliências, anéis concêntricos e aspecto corticoso. As lesões nos frutos são superficiais e se limitam apenas à casca, não atingindo sua polpa, podendo, porém, ocasionar a queda dos frutos e folhas. Segundo o pesquisador Franklin, o tamanho da lesão, sendo maior que de 5 mm, e o seu posicionamento no fruto, principalmente quando está próxima ao pedúnculo, podem favorecer sua queda.

Fundecitrus junto com a Secretarria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo promovem cursos para capacitação de todos os envolvivos com a fitossanidade nos pomares agrícolas.

A Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo também realizou treinamentos a respeito do novo Sistema de Mitigação de Risco para o cancro cítrico, a fim de zelar pela sanidade no parque citrícola paulista. O evento contou com as participações do engenheiro agrônomo Marlon Peres da Silva, da Coordenadoria de Defesa Agropecuária (CDA), que explicou o funcionamento do SMR; do Dr. Sérgio Alves de Carvalho, do Centro de Citricultura Sylvio Moreira, que apresentou as cultivares resistentes à doença, manejo e pesquisa; e do Dr. Franklin Behlau, que falou a respeito do manejo e medidas de controle para o cancro cítrico.

De acordo com Marlon da Silva, o SMR consiste na realização do manejo fitossanitário adequado para evitar a contaminação da área. “Não se trata de convivência com a doença e, sim, de trabalhar com níveis de tolerância”, afirma.

Os principais objetivos do SMR são: reduzir o potencial de inóculo – a fim de proteger áreas indenes -, permitir o trânsito de frutos das áreas de ocorrência para outras unidades federativas, e possibilitar a exportação de frutos de áreas onde há a doença para países que reconheçam o sistema como medida fitossanitária.

As medidas de manejo de cancro cítrico previstas no SMR incluem:

  • Aquisição de mudas sadias: devem ser adotadas medidas preventivas no viveiro, como deixar um recuo lateral de pelo menos dois metros para molhamento, devendo sempre evitar o molhamento foliar. Além disso, deve-se tomar cuidado com a origem do material vegetal. Quando houver a entrada de pessoas, materiais ou vestimentas, é necessário que seja feita a desinfestação. A estufa deve ser mantida limpa e sua manutenção deve ser frequente;
  • O uso de cultivares menos suscetíveis: na Tabela 1, é possível observar quais as variedades ou espécies que são mais resistentes ao cancro cítrico, como a Calamondin, Kumquat, Ponkan, Cleópatra e Sunki, e variedades/espécies mais suscetíveis como o Pomelo, Lima Ácida Galego e limões verdadeiros;

Tabela 1: Classificação de variedades/espécies de Citros de acordo com o grau de resistência ou suscetibilidade ao Cancro Cítrico.

Classificação de variedades/espécies de Citros de acordo com o grau de resistência ou suscetibilidade ao Cancro Cítrico
Fonte: Adaptado de Fundecitrus (2017).
  • Destruição de frutos contaminados;
  • Tratamentos fitossanitários preventivos: corresponde à aplicação de cobre insolúvel nos pomares (hidróxido, oxicloreto ou óxido cuproso) em um intervalo de 21 ou 14 dias, quando as variedades forem mais suscetíveis à doença. A dose de cobre, de acordo com o pesquisador Franklin Behlau, deve ser de 40 a 50 mg de cobre metálico por metro cúbico de copa até 1 Kg de cobre metálico por hectare, enquanto o volume de calda ideal é de 40 a 70 ml por metro cúbico;
  • Manejo integrado da larva-minadora: realizar o controle durante o período mais favorável à praga, que corresponde à fase de brotação, mais especificamente nos estágios fenológicos V3, V4 e V5;
  • Desinfestação de ferramentas e máquinas: inclui a desinfestação de material de colheita, veículos e ferramentas com amônia quaternária.
  • Uso de quebra-vento: tem a função de reduzir ferimentos e diminuir a disseminação da bactéria. As espécies mais utilizadas são a Casuarina e Corymbia torelliana, porém tem sido verificada alta incidência de morte de Casuarina devido ao ataque de brocas em experimentos realizados no Paraná;
  • Indutor de resistência: inseticidas neonicotinóides aplicados via drench ou tronco em pomares jovens para controle de psilídeo e larva-minadora, apresentam ação de indução de resistência ao cancro cítrico, porém ainda não está claro se há incremento no controle da doença com a combinação de indutor de resistência somado ao cobre insolúvel.

A nanopartícula de óxido de zinco tem apresentado resultados promissores nos testes realizados em campo relativos à incidência de cancro cítrico. O produto está em fase de registro nos Estados Unidos, mas ainda não está disponível no Brasil.

De acordo com a nova legislação, para o mercado de fruta de mesa, inicialmente o citricultor deve solicitar à CDA o cadastramento do imóvel e a inscrição das unidades de produção no SMR, com prazo mínimo de 180 dias antes da realização da colheita. Até 30 dias antes da colheita, deve ser feita a inspeção de 10 mil frutos por unidade de produção, ou de todos os frutos quando a produção tiver até 5 mil plantas, e em seguida deve ser emitido um relatório assinado pelo citricultor e por um responsável técnico, que será enviado à CDA em até 10 dias após a inspeção, a fim de se obter o termo de habilitação para a colheita.

No máximo 15 dias após ter recebido o relatório de inspeção, a CDA autoriza a colheita da unidade de produção que possuir no máximo 1 % de frutos sintomáticos pelo Termo de Habilitação de Colheita, o que a torna ativa para a emissão do Certificado Fitossanitário de Origem. A unidade de produção, com número de frutos sintomáticos acima de 1%, só pode ter seus frutos circulando no Estado de São Paulo.

Sintomas de cancro cítrico em folhas

Após essa etapa, os frutos são encaminhados à Unidade de Consolidação para higienização, triagem e embalagem (se o lote apresentar frutos com sintomas de cancro cítrico, este será destruído). A Unidade de Consolidação emite o Certificado Fitossanitário de Origem Consolidado (CFOC), assegurando a inexistência de frutos com sintomas de cancro cítrico. Sendo assim, o citricultor obtém a Permissão de Trânsito de Vegetais (PTV) emitida pela CDA. No caso do transporte, a partida certificada deve ser obrigatoriamente lacrada e o veículo deverá ser fechado ou coberto tanto para frutos certificados quanto para os não certificados.

Frutos destinados à indústria não necessitam estar inscritos no SMR. Neste caso, não precisam ser submetidos ao processo de higienização e triagem em unidade de processamento. Mesmo assim, os citricultores devem empregar todas as medidas de manejo integrado de cancro cítrico do SMR.

Dentro do Estado de São Paulo, o mercado interno de fruta de mesa deve comercializar apenas frutos sem lesão de cancro cítrico. Enquanto que para a indústria, é permitida a comercialização de frutos com ou sem lesão da doença.

De acordo com o consultor e membro do GTACC, Arlindo de Salvo Filho, a nova legislação para o cancro cítrico no estado de São Paulo irá dificultar a comercialização de fruta para mesa, devido a todo o trâmite a que a fruta deverá ser submetida antes de ser comercializada.

Segundo o consultor, a previsão é de que 60 milhões de caixas de citros nesta safra sejam destinados ao mercado de fruta de mesa, sendo que 40% destas serão comercializados para fora do Estado. Desta forma, o mercado de fruta fresca será comprometido, enquanto o mesmo não ocorrerá com a fruta destinada à indústria, pois esta não necessita de toda a burocracia estabelecida para comercialização de frutos de mesa.

Tecnologia de Ressonância Magnética Nuclear, muito utilizada na medicina, é adaptada para uso agrícola. Foto Danila Corassari

63ª edição