Décio Joaquim
Armadilha AdesivaDécio Joaquim

Diferentes armadilhas e atraentes no monitoramento do psilídeo

Aparecido Tadeu Pavani

Engº. Agrº. Consultor/GTACC

tadeu@gtacc.com.br

 

A doença Huanglongbing (HLB ou Greening), causada por um complexo de bactérias conhecido como Candidatus Liberibacter spp., constitui-se no maior problema fitossanitário dos citros, na atualidade. Essas bactérias têm como vetor que realiza sua disseminação natural, no Brasil, o psilídeo da espécie Diaphorina citri. Devido à importância da doença, esse agente vetor se tornou uma das principais pragas da cultura, cujo manejo de controle tem sido feito com grande número de pulverizações de inseticidas, muitas vezes sem o devido acompanhamento de sua ocorrência por meio de monitoramento.

Assim, fomos motivados a investigar e avaliar diferentes modelos de armadilhas associadas a voláteis atraentes para captura de adultos de D. citri em áreas de citros. Durante os meses de maio e junho de 2013 avaliamos a captura de psilídeos através de dois modelos de armadilhas (“cartão adesivo amarelo” e tipo “Delta amarela”), associados aos atraentes: “extratos de voláteis de plantas de citros com HLB”, “extratos de voláteis de plantas de citros sadias” e um solvente, que atuou como “controle”, totalizando seis combinações. O ensaio, que foi realizado na Fazenda São José, município paulista de Fernando Prestes, foi instalado em dois talhões de laranja ‘Valência’, enxertada sobre limoeiro ‘Cravo’, foi repetido por seis semanas.

Os dados compilados deram suporte à dissertação apresentada pelo autor deste artigo ao Fundecitrus – Fundo de Defesa da Citricultura, como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Fitossanidade.

A importância do monitoramento

Devido à grande importância que D. citri assumiu como espécie vetora do HLB na citricultura, diferentes estratégias para seu controle vêm sendo estudadas. Atualmente, o controle do psilídeo, juntamente com a erradicação de plantas doentes e uso de material de propagação sadio, têm sido as únicas formas de manejo da doença.

A dificuldade na determinação de níveis de controle confiáveis para vetores é um dos principais fatores que restringem a aplicação de conceitos de manejo integrado de pragas no controle das doenças associadas aos citros. Isso se deve, principalmente, às limitações relacionadas à disponibilidade de métodos de amostragem suficientemente sensíveis para detectar baixas populações do vetor, bem como aplicar táticas de controle que sejam eficazes para impedir ou reduzir a transmissão dos patógenos.

O uso de armadilhas adesivas amarelas tem se mostrado o mais eficiente entre os métodos para monitoramento da praga nos pomares, todavia, essa eficiência é ainda baixa, pois consiste na atração do inseto pela cor, limitando-se ao campo visual do psilídeo.

Além da atração que têm pela cor (amarela e verde, no caso do psilídeo – talvez por serem semelhantes à coloração das brotações novas), os insetos são os seres vivos que mais utilizam os odores para desempenhar suas atividades. O olfato é fundamental ao distinguir os diversos odores, por exemplo, presentes na localização de presas, na defesa e na agressividade, na seleção de plantas hospedeiras, na escolha de locais para oviposição, na corte e acasalamento e em tantos outros comportamentos.

Já foi comprovado que adultos de D. citri são atraídos pelos voláteis liberados por plantas de citros. Além disso, se verificou que os voláteis das plantas de citros com HLB foram ainda mais atrativos para o psilídeo do que os das plantas sadias, sugerindo que o fitopatógeno Ca. L. asiaticus foi capaz de alterar a produção de voláteis nestas plantas e, assim, torná-la mais atraente.

Com base em tais informações, verificou-se uma grande necessidade de se aperfeiçoar o sistema de monitoramento de Diaphorina citri, seja pelo desenvolvimento de novas estratégias ou de armadilhas mais eficientes. Deste modo, nos propusemos a avaliar diferentes modelos de armadilhas associadas a voláteis atraentes para captura de adultos de D. citri em pomares de citros.

O manejo do psilídeo e o monitoramento

As ações para o manejo do HLB impactam aumentos ao custo de produção com incremento no número de horas-máquina (HM) e horas-homem (HH) por hectare, que dependem do número de aplicações de inseticidas para o controle do vetor e das vistorias realizadas e, com isso, diminui o lucro líquido do citricultor. Além disso, o controle do psilídeo vem sendo realizado com diversas e frequentes aplicações de inseticidas químicos por meio de pulverizações, favorecendo o desenvolvimento de populações resistentes desse inseto e prejudicando as populações de inimigos naturais, o que representa uma estratégia de manejo não sustentável.

O manejo de D. citri tem como melhor opção para definição do momento de aplicação o monitoramento populacional, realizado por meio de armadilhas adesivas verdes ou amarelas e por meio dos inspetores de pragas (“pragueiros”), com uma frequência de monitoramento que não seja maior do que 10 dias. Uma vez definida a necessidade de aplicação, recomenda-se a rotação de inseticidas de classes diferentes para evitar a seleção de populações resistentes a algum dos produtos.

Embora se demonstre que a erradicação frequente de plantas contaminadas tenha grande influência na redução da infecção secundária (de uma planta contaminada para outra planta sadia, dentro do mesmo pomar) o fluxo constante de Diaphorina citri já contaminado entre pomares ou vinda de hospedeiros alternativos, permite rápidas reinfestações da área tratada, ocasionando o que se chama de infecções primárias.

Desse modo, mesmo propriedades com rigoroso manejo de HLB podem apresentar aumento da população de psilídeo e progresso da doença na área tratada, devido à infestação por insetos provenientes de áreas adjacentes sem controle de HLB, as quais permanecem como fonte de inóculo desses organismos agressores, evidenciando, desse modo, a importância dessas fontes externas sobre o manejo do HLB nos pomares tratados. Essas constatações reforçam a importância do manejo regional, que objetiva aplicações simultâneas de inseticidas entre diversos produtores ou propriedades a partir de resultados de monitoramento com armadilhas amarelas adesivas georeferenciadas como parte de um sistema de alerta. Nesse sentido, quanto mais eficiente o sistema de monitoramento do psilídeo, maior a eficiência esperada para essa estratégia de controle da doença.

Com a detecção prematura ou com a ausência da praga através do monitoramento, pode-se reduzir enormemente o uso de inseticidas. O monitoramento pode ser útil, também, para se determinar a distribuição de um inseto em uma área geográfica e ainda, para estabelecer limiares de ação e os melhores períodos para o controle. Para o monitoramento do psilídeo, tem sido empregado no Brasil o levantamento amostral por observação visual (observa-se com uma lupa a presença de adultos, ninfas e ovos, em 3 a 5 brotações de 1% das plantas do talhão) ou, mais comumente utilizado, armadilhas adesivas coloridas, colocadas entre 1,5 m e 3,0 m de altura na parte externa da copa das plantas (área bem ensolarada), contabilizando-se, periodicamente, o número de adultos capturados.

Importante observar que a distribuição espacial das armadilhas é fundamental para a captura de D. citri. Maiores quantidades de indivíduos são capturados por armadilhas adesivas na periferia do talhão ou da propriedade.

Método empregado para o ensaio e resultados

Os dois tipos de armadilhas – cartão adesivo amarelo (30 cm x 10 cm) e armadilha tipo Delta (28 cm x 11 cm x 19 cm) com telhado plástico amarelo, foram conjugados aos extratos – de plantas de laranja ‘Pera’ com e sem HLB – através do uso de pequenos septos de borracha, vermelhos, com diâmetro externo de 8 mm, impregnados com uma solução de atraente ou apenas do solvente hexano.

Esses extratos mostraram-se atraentes para o psilídeo em ensaios de laboratório do Fundecitrus, sendo que o volátil de plantas com HLB foi mais atraente do que o extraído de plantas sadias, enquanto que o hexano não promoveu alterações comportamentais na praga.

Após total absorção e evaporação do solvente, os septos foram levados para campo em caixa de isopor forrada com gelo e, posteriormente, fixados nas armadilhas.

No campo o ensaio foi montado com as armadilhas instaladas na periferia de dois talhões. O experimento foi dividido em 8 blocos, sendo 4 blocos por talhão. Dentro de cada bloco foram distribuídas as seis combinações de “armadilhas + atraentes”, sendo fixada uma combinação por planta (em ramos na região externa da copa, à 1,50 m do solo), espaçadas 20 m umas das outras.

Decorrida uma semana da instalação, as armadilhas foram coletadas e encaminhadas para análise no laboratório do Fundecitrus. Nessa mesma ocasião, novas armadilhas recém preparadas (com novos septos e extratos) foram instaladas nos locais das anteriores. No entanto, a combinação de “armadilha + atraente” foi rotacionada dentro de um mesmo bloco, de forma que, após um total de seis semanas (seis repetições no tempo), todas as seis combinações de “armadilha + atraente” ocupassem todas as posições dentro do bloco, com a finalidade de eliminar o efeito de posição.

A análise estatística dos dados de captura de psilídeos pelas diferentes combinações de “armadilhas + atraentes” indicam que não houve uma interação entre modelo de armadilha e o atraente utilizado, contudo, aponta diferença quanto ao número médio de adultos de psilídeos capturados pelos diferentes modelos de armadilha, sendo o modelo “cartão adesivo amarelo’ mais eficiente em relação ao modelo “Delta amarela”, tanto na avaliação total de indivíduos (machos + fêmeas), quanto na avaliação individualizada por sexo. Além disso, o modelo “cartão adesivo amarelo” capturou significativamente mais fêmeas do que machos, o que não foi observado no outro modelo.

Já em relação aos atraentes testados, nenhum apresentou eficiência significativa nas condições do experimento, seja na avaliação total de psilídeos (machos + fêmeas) seja na avaliação individualizada por sexo. Para esse fator, também observou-se uma maior captura de fêmeas em relação a machos, no entanto, esse resultado também foi encontrado no “controle” (hexano), sugerindo que essa diferença na proporção de machos e fêmeas não foi devido à uma maior atração exercida sobre essas últimas por um dos atraentes testados.

Desse modo, novos estudos são necessários para a busca de atraentes com boa eficiência em condições de campo e de modelos de armadilhas que, além de eficientes para dispersão de odores, sejam adaptados ao comportamento de D. citri em pomares de laranja, possibilitando, assim, o aprimoramento dos atuais métodos de monitoramento desse psilídeo.

A íntegra do trabalho traz pormenores, dados estatísticos e farta bibliografia sobre o assunto, sob o título: “Avaliação de diferentes modelos de armadilhas no monitoramento de Diaphorina citri Kuwayama (Hemiptera: Liviidae) em pomares cítricos visando a utilização de atraentes”, Fundecitrus, Araraquara, 2015.

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