Décio Joaquim
Cancro Cítrico nas folhasDécio Joaquim

Fundecitrus apresenta resultados contra o Cancro Cítrico em experimentos no PR

Humberto Vinícios Vescove

Consultor Vescove Consultoria/GTACC

vescoveconsultoria@gmail.com

 

Com a presença de mais de uma centena de interessados (produtores e técnicos paulistas, em sua maioria), o Fundecitrus – Fundo de Defesa da Citricultura, realizou nos dias 16 e 17 de março, nos municípios de Xambrê e Guairaçá, no Paraná, o 2º. Dia de Campo de Cancro Cítrico, em parceria com o Instituto Agronômico do Paraná e a Cocamar Cooperativa Agroindustrial.

Segundo os técnicos do Fundecitrus, “um dos aspectos avaliados no experimento realizado na estação experimental do Iapar, em Xambrê, é a evolução da doença no pomar. Pouco mais de dois anos após a chegada do Cancro Cítrico na área, foi possível observar que, enquanto na maioria dos tratamentos a incidência de plantas doentes está próxima de 100%, nas áreas tratadas com cobre e protegidas por quebra-vento este índice é inferior a 60%”.

Para o pesquisador do Fundecitrus, Franklin Behlau, “as três medidas de controle estudadas se revelaram importantes. No entanto, a combinação cobre e quebra-vento foi imprescindível para o sucesso do manejo. O cobre se destacou na redução da disseminação do Cancro Cítrico entre as plantas. O quebra-vento teve maior impacto na diminuição da agressividade da doença”.

De acordo com Behlau, “o controle da Larva Minadora não reduziu o Cancro Cítrico na mesma magnitude das demais medidas, porém, ajudou no manejo integrado da doença. Os benefícios foram observados em todas as variáveis avaliadas, inclusive na produtividade das plantas. Apesar de não atacar os frutos, a Minadora pode afetar a produção por aumentar a doença na planta, resultando em maior infecção e queda prematura de frutos”, concluiu.

Histórico da doença

O Cancro Cítrico é uma doença que ocasiona perdas econômicas importantes na citricultura. Apresenta como patógeno a bactéria Xanthomonas citri subsp. citri originária da Ásia e constatada no Brasil em 1957.

Os principais impactos da doença são a desfolha das plantas, a presença de lesões nos frutos que levam à depreciação da qualidade da produção, redução da produção devido à queda dos frutos e comercialização restrita (Fundecitrus, [s.d.]).

No estado de São Paulo, atualmente o controle do Cancro Cítrico é feito pela erradicação das plantas doentes segundo a lei estadual em vigor (Resolução SAA – 147, publicada em 1º de novembro de 2013, no Diário Oficial), que estabelece a eliminação da planta contaminada e pulverização com cobre das outras plantas cítricas existentes em um raio de 30 metros, além de ser necessária a realização de pelo menos uma inspeção trimestral em todas as plantas, que deverá ser informada à Secretaria de Agricultura por meio de relatórios semestrais.

Em contrapartida, o estado do Paraná aprendeu a conviver com a doença. O pacote tecnológico desenvolvido pelo Iapar – Instituto Agronômico do Paraná, possibilitou a seleção de variedades de citros consideradas resistentes à doença e associadas à implantação de quebra-ventos e às pulverizações à base de cobre, permitiram a ampliação das áreas citrícolas (CROCE FILHO, 2005).

Ensaios fundamentais

Dessa forma, estudos foram desenvolvidos pelo Fundecitrus no Paraná, em parceria com o Iapar, Cocamar, Esalq/Usp, Universidade da Flórida e Usda – Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, para verificar a eficácia do manejo integrado de Cancro Cítrico na prevenção e redução dos impactos da doença em pomares de citros.

Um dos trabalhos foi desenvolvido em uma área experimental de 3,7 hectares localizada no município de Guairaçá, onde estão sendo testadas 75 variedades de citros enxertadas em limão ‘Cravo’ e três variedades enxertadas em citrumelo ‘Swingle’, plantadas em dezembro de 2012, para a verificação da resistência destas ao Cancro Cítrico. O experimento consta de três repetições, sendo cinco plantas por cada repetição. Foram realizadas aplicações de cobre e de controle da Larva Minadora dos citros.

Quanto ao porta enxerto, o citrumelo ‘Swingle’ apresentou menor incidência de Cancro Cítrico nas folhas quando comparado ao limão ‘Cravo’, sendo 26% menos na variedade Natal e 15% na Iapar 73. O mesmo foi verificado para a incidência de Cancro Cítrico em frutos, no qual o porta enxerto citrumelo ‘Swingle’ apresentou uma incidência 14% menor na variedade Natal e 21% menos na variedade Iapar 73.

Em relação às variedades, a tangerina ‘Ponkan’ foi a que apresentou menor incidência de Cancro Cítrico nas folhas (12,6%), e, ao contrário, na laranja ‘Seleta Tardia’ foi observada maior incidência (60,9%), enquanto nos frutos, a maior e a menor incidência foram verificadas na variedade ‘Solid Scarlet’ (3,7%) e no híbrido 10 (100%), respectivamente. Aos interessados, o Fundecitrus disponibiliza os resultados apresentados por todas as variedades testadas.

Na fazenda Nova Manhã, localizada no município de Paranavaí, também no estado do Paraná, está sendo conduzido outro experimento, desta feita, em laranja ‘Pera’ enxertada sobre limão ‘Cravo’, plantada em outubro de 2012. Foram instalados 11 tratamentos com diferentes doses e volumes de cobre metálico.

A fonte de cobre utilizada foi oxicloreto de cobre (produto comercial Difere, com 35% de cobre metálico), tendo sido avaliados dois parâmetros: incidência média (%) de Cancro Cítrico nas folhas e nos frutos. Nas folhas, a testemunha, onde não se aplicou o cobre metálico, foi a que apresentou maior incidência da doença com 44,17%, seguida pelo tratamento em que se utilizou oxicloreto de cobre na dose de 10,5 mg de cobre metálico/m3 de copa e volume de calda de 20 mL/m3 de copa, que apresentou uma incidência de 33,79%. Para o fruto, o mesmo foi observado, sendo que a testemunha apresentou uma incidência da doença de 75,1% e no tratamento em que se aplicou oxicloreto de cobre na dose de 10,5 mg de cobre metálico/m3 de copa e volume de calda de 20 mL/m3 de copa foi observada uma incidência de 72,6%. O cobre na dose de 36,8 mg de cobre metálico/m3 de copa e volume de calda de 70 mL/m3 de copa foi o tratamento que apresentou menor incidência de Cancro Cítrico nas folhas (12,19%) e nos frutos (30,4%).

Experimento conduzido em Xambrê (PR)

Outro experimento está sendo desenvolvido em uma área experimental de 10 hectares de laranjeira ‘Valência’ enxertada em limão ‘Cravo’, plantados em 2010. O ensaio é composto por 8 tratamentos, com três repetições e 112 plantas por parcela. Os tratamentos são os seguintes: T1 – Utilização de quebra-vento, aplicação de cobre e controle da Larva Minadora; T2 – Utilização de quebra-vento e aplicação de cobre; T3 – Utilização de quebra-vento e controle da Larva Minadora; T4 – Utilização de quebra-vento; T5 – Aplicação de cobre e controle da Larva Minadora; T6 – Aplicação de cobre; T7 – Controle da Larva Minadora; e T8 – sem controle.

A espécie utilizada como quebra-vento foi a Casuarina cunninghamiana, plantada em dezembro de 2011. O cobre aplicado está na forma de hidróxido de cobre (Kocide, 35% de cobre metálico), com volume de calda de 1.450 L/hectare, correspondendo a 0,75 kg de cobre metálico por hectare (40 mg cobre metálico/m³ de copa) em intervalos de 21 dias, e no controle da Larva Minadora foi usado o inseticida abamectina na dose de 300mL de produto comercial (18%)/2000 L, a cada 21 dias.

Com 26 meses de epidemia constatou-se que o tratamento onde foi realizado o manejo completo, 59% das plantas estavam com incidência da doença, e 53% para as plantas pulverizadas com cobre e protegidas pelo quebra-vento, porém, o tratamento sem controle apresentou 99% de plantas doentes, sendo o mesmo verificado para o tratamento em que somente se controlou a Larva Minadora dos citros.

Em janeiro de 2016 (transcorrido o mesmo tempo de epidemia) verificou-se que das folhas de plantas doentes com Cancro Cítrico, 5,6% apresentavam incidência da doença onde não foi realizado o controle, 1,1% de incidência foi verificado no tratamento em que se utilizou o manejo completo e no tratamento em que foi aplicado o cobre e implantado o quebra-vento, 0,9% mostravam incidência da doença.

Dessa forma, é possível inferir que a adoção de um manejo completo, utilizando quebra-vento, pulverização com cobre e inseticidas no controle da Larva Minadora, associados à implantação de variedades resistentes à doença, reduz a infestação de Cancro Cítrico nas folhas e frutos em áreas possíveis de conviver com a doença, como é o caso do Paraná.

Referências bibliográficas

CROCE FILHO, J. Avaliação do cancro cítrico em variedades de citros em condições de campo no noroeste do Paraná. 66 f. 2005. Dissertação (mestrado em Agronomia)-Universidade Estadual do Paraná, Maringá, 2005.

FUNDECITRUS: Fundo de Defesa da Citricultura. Doenças e pragas. Disponível em: < http://www.fundecitrus.com.br/doencas/cancro/7>. Acesso em: 22 mar. 2016.

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