Geraldo palestrando no GTACC
Geraldo palestrando no GTACC

Pinta Preta é destaque de livro do Fundecitrus

décio Joaquim

Consultor Campo Consultoria/GTACC

deciojoaquim@uol.com.br

 

Editado pelo Fundecitrus, com a autoria de seis mestres da fitopatologia, o livro “Pinta Preta dos Citros – a doença e seu manejo”, tem o objetivo de reunir a melhor informação a respeito dos estudos disponibilizados sobre a doença. O GTACC teve a oportunidade de receber o pesquisador Geraldo José da Silva Junior, um dos autores da obra, que aproveitou a oportunidade para divulgar a compilação e promover uma atualização sobre os muitos aspectos da enfermidade que tem prejudicado bastante os pomares brasileiros

Causada pelo fungo Phyllosticta citricarpa, a Pinta Preta ou Mancha Preta dos Citros, é uma doença específica dos citros. Relatada pela primeira vez no longínquo ano de 1892, na Austrália, atualmente a enfermidade está presente em vários países de diferentes continentes do mundo, incluindo importantes produtores de cítricos, como Brasil, China, Estados Unidos e Argentina.

Responsável por danos qualitativos, decorrentes dos sintomas provocados na casca dos frutos, e por danos quantitativos relacionados à queda prematura das frutas contaminadas, a doença reduz severamente a produtividade das plantas. Esse dano é, economicamente, o mais significativo para a citricultura brasileira, pois mais de 70% da produção do país é destinado ao processamento da fruta para a produção de suco e subprodutos.

Geraldo José da Silva Junior, pesquisador do Fundecitrus – Fundo de Defesa da Citricultura, e responsável por estudos de etiologia, epidemiologia e manejo de doenças causadas por fungos, especialmente Pinta Preta e Podridão Floral, nos resume particularidades a respeito da Pinta, revelando diversos aspectos preponderantes no controle da enfermidade, que muito tem prejudicado os pomares nacionais. Em recente palestra proferida nas dependências do GTACC, Silva Junior fez ampla explanação sobre a doença e algumas características importantes a serem observados no manejo de controle.  O pesquisador é engenheiro agrônomo, doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo, com ênfase em Fitopatologia, área na qual já havia obtido o título de mestre, fazendo parte do corpo científico do Fundecitrus desde 2011.

Geraldo destaca que a queda de frutos é mais acentuada em variedades de laranjeiras doces de maturação tardia e em pomares mais velhos, onde, em geral, ocorre um acúmulo progressivo de inóculo do fungo. A ausência de controle químico da doença nesses pomares, com idades entre 10 e 22 anos, provoca, em média, 46,4% de queda de frutas. Ao contrário, em condições de controle químico realizado em intervalos corretos de aplicação, o índice é reduzido a 12,1%, em média, que é uma taxa de queda encontrada em pomares sem a presença da doença. Importante lembrar que 5,0% é considerada uma taxa normal de queda, associada apenas a maturação da fruta, desconsiderando outros tantos problemas comuns aos cítricos.

Em relação à grande importância que a Pinta Preta representa para a exportação de frutas cítricas – uma vez que frutos com sintomas da doença são impróprios para exportação – Geraldo lembra que os países da União Europeia vêm colocando muitas restrições à entrada em seu território de frutos produzidos em países ou regiões onde a doença ocorre. O patógeno é considerado praga quarentenária A1 na UE, pelo fato de, ainda, não ter sido constatado nas áreas produtivas dos países membros.

As restrições associadas à Pinta Preta, impostas pela UE, vêm sendo muito questionadas pelos principais países exportadores de frutas cítricas. O pesquisador do Fundecitrus nos conta que “de acordo com as análises de risco elaboradas em separado ou em conjunto por vários dos países exportadores, incluindo Brasil, África do Sul, Argentina, Austrália, Estados Unidos e Uruguai, os riscos de introdução do patógeno, por meio de frutos infectados sem folhas e pedúnculos, e posterior estabelecimento da doença na UE, são relativamente baixos, devido sobretudo às limitações climáticas para a Pinta Preta se estabelecer em regiões da UE que apresentam aptidão para a produção de citros”, revela Geraldo da Silva Junior.

Período de expressão dos sintomas

Denomina-se período de incubação o intervalo de tempo compreendido entre a inoculação e a expressão dos sintomas. A Pinta Preta apresenta um período de incubação longo, variável em função do estado fenológico do fruto quando da sua infecção, além das condições ambientais após a infecção.

De modo geral, frutos de laranja ‘Valência’, inoculados com até 3 cm de diâmetro, expressaram sintomas entre 150 e 270 dias após as inoculações, ao passo que em frutos inoculados com diâmetros iguais ou superiores a 5,0 cm, o período para o surgimento dos sintomas foi inferior, variando de 26 a 109 dias. A concentração do fungo e o tipo de sintoma causado, também tiveram influência no tempo de ocorrência dos sintomas.

Importante salientar que nos pomares do estado de São Paulo, as infecções por Pinta Preta ocorrem a partir de setembro/outubro, com o início do período chuvoso da safra, quando os frutos estão no início de formação. Entretanto, a expressão dos sintomas da enfermidade, com o aparecimento de lesões de falsa melanose, geralmente, começa somente a partir dos meses de fevereiro/março do ano seguinte. Em laranjeiras doces, desde o início dos sintomas até a colheita, a incidência e a severidade da doença aumentam consideravelmente, independentemente da maturação precoce ou tardia dos frutos. Os primeiros sintomas são observados, em geral, em frutos com 5 a 6 meses de idade. Portanto, mesmo com as infecções acontecendo em períodos variáveis, pois os frutos permanecem suscetíveis por longos períodos, a época do aparecimento dos sintomas não é muito variável.

Novas informações para o controle

Deve-se enaltecer a recente atuação do Fundecitrus como instituição de pesquisa. Resultados expressivos obtidos por sua experimentação estão formando um sustentáculo diferenciado para auxiliar a todos no controle da Pinta Preta, assim como de outras doenças, como o Cancro Cítrico, por exemplo.

A elaboração de uma planilha baseada nas concentrações de cobre metálico de cada produto comercial, ajustando as doses de acordo com três recomendações de doses de cobre metálico (50, 75 e 90 g de Cum/100 L), usadas nos primeiros ensaios para controle no estado de São Paulo, também foi muito bem vinda. A partir de 2010, o Fundecitrus passou a avaliar a eficiência de doses ajustadas para o cálculo de cúpricos para determinado volume de copa das plantas. O ajuste da dose de cobre para o controle da Pinta Preta – possível e desejável – continua em estudo, apesar da eficiência da dose padrão de 50 mg a 60 mg de cobre metálico/m3 de copa. A dose a ser utilizada para as três estrobilurinas registradas para o controle (azoxistrobina, piraclostrobina e trifloxistrobina) é em torno de 4,0 g i.a./100 L de calda, ou 2,8 mg i.a./m3. Em todos os casos, acompanhados por 0,25% de Óleo Mineral ou Vegetal.

O emprego da técnica da “cubicagem” das plantas passou a ser um referencial importante para se determinar toda a estratégia de controle da doença, uma vez que o volume de calda deve ser específico para cada doença ou praga em cada pomar e definido por metro cúbico de planta. Com base em muitos estudos, o volume de calda de fungicida voltada exclusivamente ao controle da Pinta Preta foi definido em 75 mL de calda/m3 de copa. Esse volume de calda apresenta eficiência de controle similar à obtida para 100 e 125 mL/m3, com produtividades, também, similares.

Além disso, as melhores relações custo-benefício foram obtidas com o volume de 75 mL/m3, com e sem correção de dose dos fungicidas, sendo que para cada US$ 1,00 investido no controle da Pinta Preta, o citricultor deixa de perder, com a queda dos frutos, em torno de US$ 10,30 e US$ 11,40, segundo o Fundecitrus.

A confirmação da eficiência, dos resultados de controle e do custo-benefício obtidos pelos diferentes volumes de água e de princípios ativos no manejo de controle da Pinta Preta, passou a ser um marco no combate à enfermidade.

O livro do Fundecitrus

Geraldo aproveitou a sua estada no GTACC para divulgar o lançamento do livro “Pinta Preta dos Citros – a doença e seu manejo”, que é uma obra que reúne o que existe de atualização a respeito da Pinta Preta, escrita por seis especialistas, doutores em Fitopatologia: o próprio Geraldo José da Silva Junior, Lilian Amorin (docente da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, ESALQ/USP, desde 1988), Eduardo Feichtenberger (pesquisador da Agência Paulista de Tecnologia, APTA/SAA, chefe da Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento de Sorocaba), Antonio de Goes (docente da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, FCAV/UNESP), Renato Beozzo Bassanezi (desde 2000, é pesquisador do Fundecitrus) e Marcel Bellato Spósito (professor da ESALQ/USP, a partir de 2010) e editada pelo Fundecitrus.

O livro, com 208 páginas, é distribuído pela entidade a produtores e demais interessados, trazendo conteúdo rico em informações sobre a doença. Os citricultores encontrarão farto material ilustrativo, detalhando os vários tipos de sintomas e um capítulo especial sobre a fitopatometria da Pinta Preta, trazendo a escala diagramática para avaliação dos sintomas e sua relação com a severidade imposta pela doença.

O conteúdo técnico da obra abrange pormenores sobre as relações entre o fungo, a planta e o ambiente, destacando também, toda a sistemática de controle, a elaboração das estratégias de pulverizações, a importância dos intervalos entre as aplicações, as várias nuances envolvendo os controles cultural e químico, além de vasta informação sobre o patógeno e sobre outras estratégias de manejo nos pomares, tanto para áreas destinadas à produção de frutas para o consumo fresco, quanto destinadas à industrialização.

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