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Roberto CestariComTexto

União que faz a diferença

Fundador e presidente da Oricana comenta o mercado, as evoluções do setor e dá dicas aos produtores de cana-de-açúcar

Envolvido em associações desde a infância, quando atuava em grêmios estudantis, Roberto Cestari é um líder nato e uniu essa característica com sua paixão pelo negócio da família: a cultura da cana-de-açúcar.

Fundador e hoje à frente da presidência da Oricana – Associação dos Fornecedores de Cana da Região de Orindiúna –, ele já atuou e atua em uma série de entidades como Coplana, cooperativas de crédito, Socicana e Orplana, acumulando uma vasta experiência no setor e em cooperativismo.

Foi justamente seu know-how e espírito de liderança que o fez pensar em uma associação moderna, pioneira e diferenciada das já existentes. Nasceu, assim, em março de 2000, a Oricana, pautada na independência dos produtores de cana-de-açúcar; atualmente com 135 associados.

Em entrevista exclusiva para a Revista Ciência & Prática, Cestari comenta a situação atual do setor, perspectivas para o futuro e o trabalho desenvolvido na Oricana. Confira:

Ciência & Prática: Como está pautado o trabalho da Oricana?

Roberto Cestari – Trabalhamos fortemente para promover a capacitação e profissionalização dos envolvidos no setor. Para isso, treinamos nossa equipe oferecendo um serviço de qualidade aos associados.

A Oricana faz hoje um trabalho completo de assessoria e planejamento estratégico do plantio e colheita. Faz todo o trabalho de relacionamento entre produtores e unidades industriais, unindo a classe e fazendo com que todos os problemas e dificuldades sejam solucionados dentro da própria Oricana. É uma forma de fazer com que os produtores sejam independentes em seu negócio, buscando formas de amenizar custos e aumentar resultados positivos.

Também incentivamos e damos assessoria para que os produtores pensem na rotação de culturas e incentivamos o plantio de soja e amendoim, por exemplo, para que eles conservem o solo e tenham uma outra fonte de renda.

C&P: Quais estratégias são necessárias para sobreviver no mercado?

Cestari – O produtor tem que buscar a sustentabilidade de seu negócio e o segredo para isso está em ser independente e tecnificado. Um produtor que comanda seu negócio e sabe gerenciá-lo por meio de um planejamento estratégico sai na frente, pois consegue ter um custo menor de produção e se tornar mais competitivo, conseguindo driblar os assédios dos grandes grupos. Historicamente, com recordes e recordes de produção a cada ano, mostramos nossa força. É na cadeia produtiva que está a força do agronegócio e só conseguimos melhores resultados porque somos mais produtivos.

C&P: A atual crise, tanto política como econômica, está influenciando de forma negativa o setor?

Cestari – O setor sucroenergético carrega uma crise política e econômica há alguns anos. E com decorrer do tempo, o setor se endividou, tanto a cadeia produtiva como a industrial. Em 2016 e 2017, os preços devem ter uma ligeira melhora e quem tiver sabedoria vai conseguir equilibrar as contas.

Claro que não podemos negar que esse cenário promove uma maior concentração de renda no setor, com grandes produtores incorporando pequenos, e grandes usinas comprando outras menores. Isso é reflexo das transformações que sofremos nos últimos anos. Hoje, é necessário um investimento muito alto para ter um módulo mínimo de produção e manter o negócio viável do ponto de vista operacional por conta da mecanização da cultura.

Por isso, a Oricana desenvolveu esse projeto pioneiro no setor de realizar o planejamento estratégico dos associados. Nós trabalhamos em conjunto, fazendo com que os grandes produtores absorvam a prestação de serviço dos vizinhos menores, o que garante a sobrevivência desse pequeno produtor no negócio com custos razoáveis. Mais que um trabalho com fundamento econômico, estamos fazendo um trabalho social ao garantir a sustentabilidade do negócio do pequeno produtor.

C&P: A crise também influencia nos preços do etanol e do açúcar? Como isso está repercutindo no setor?

Cestari – De modo geral, a crise tem reflexo em todos os setores e em todos os processos produtivos. Então, claro que dificulta também o nosso mercado. Para a cana-de-açúcar, o cenário ideal deve ser o de equilíbrio, com o dólar em valor razoável, inflação controlada e com juros e encargos financeiros também controlados. Essa crise atual está gerando um clima e insegurança muito grande e todo mundo de certa forma tirou o pé do acelerador porque é difícil se arriscar e investir nesse contexto. Mas sou um otimista e confio muito em nosso potencial e na volta de um novo Brasil rapidamente. Somos um país diferenciado e logo o cenário irá se estabilizar.

C&P: O que o produtor pode fazer para reduzir seus custos de produção?

Cestari – O caminho é saber usar a tecnologia de maneira inteligente. Por isso, insisto mais uma vez na importância da capacitação e do uso da agricultura de precisão, que permite uma colheita de 90 a 100 toneladas por hectare.

Com esses recursos em mãos, não há desperdícios. O produtor sabe se realmente é necessário fazer uma correção no solo, se é necessária uma pulverização em determinado momento. Eu costumo dizer que as pessoas precisam ser mais confiantes e se arriscarem. Falo isso por experiência própria, já que minha família está na quinta geração dentro do setor. Sempre tivemos crises e sempre vamos ter e quem está capacitado sai na frente e consegue vislumbrar mais oportunidades.

C&P: O que é mais importante nesse contexto: produtividade ou longevidade do canavial?

Cestari – Os dois são fundamentais para a sustentabilidade do negócio e é isso que buscamos com a agricultura de precisão. É muito importante buscar uma boa produtividade para ter que equilibrar as contas e também pensar na longevidade, com técnicas cada vez mais adequadas e intervenções realizadas no canavial quando realmente são necessárias. Antigamente, as pulverizações e correções do solo eram feitas de maneira aleatória. Hoje, é possível fazer análises laboratoriais que rapidamente identificam o que precisa ser feito, quando deve ser feito, deixando o solo melhor e, por consequência, aumentando a produtividade.

Claro que ainda precisamos evoluir. Com a sistematização da cultura, ainda há muitas perdas, por exemplo, na colheita mecanizada, perdemos cerca de 10% da produção. Então, ainda precisamos evoluir, melhorar técnicas. O que aconteceu com o setor é que ainda não tivemos tempo para aprimorar algumas técnicas, pois o fim das queimadas foi uma imposição legal e o setor foi obrigado a se adequar, sem ajuda ou subsídios. E eu acredito muito que os produtores contribuem positivamente com o meio ambiente: eles cuidam do solo, plantam árvores e são mais conscientes do que a maior parte da população urbana.

C&P: Na sua avaliação, a mecanização é vantajosa ou prejudicial ao setor?

Cestari – Nem um nem outro. Vantajosa é uma palavra muito pesada. Sem dúvida, a mecanização é uma evolução. São mudanças que vieram para ficar, mas ainda precisamos aperfeiçoar essa sistematização. Isso só é possível com qualificação e capacitação. Com a mecanização, um erro humano pode ser fatal em função do uso de tecnologias que até então não eram usadas.

Os equipamentos são muito caros e de alto custo de manutenção. Então, por isso, as pessoas que os operam precisam estar capacitadas para essa função. E o que fizemos na Oricana foi justamente dar oportunidade para esse pessoal: todos os colaboradores foram convidados a se capacitar. Foi uma forma de absorver esse pessoal.

C&P: Nesse cenário, você tem alguma orientação para os produtores sobre como se portar nas relações com as usinas? É aconselhável plantar a cana ou arrendar a área?

Cestari – Meu conselho é evitar tratativas individuais, pois o produtor perde sua força. Trabalhando em grupo e de maneira ordenada, é possível conseguir um bom retorno e manter uma boa relação. E outro conselho: não arrendar. O produtor tem que estar dispostos a correr riscos. E se pensarmos, corremos riscos sempre. Viver é arriscar-se a morrer. Por isso, o produtor deve se manter no negócio e buscar cada vez mais se capacitar e produzir de forma adequada e organizada.

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