Como vai a nossa laranja de cada dia?

Como vai a nossa laranja de cada dia?

Josimar Vicente Ducatti

Consultor/GTACC

jducatti@hotmail.com

 

Um comentário abrangente, sugerindo melhorias fundamentais para o setor citrícola, originadas do ponto de vista de quem milita na atividade há muitos anos. Engenheiro agrônomo, consultor, citricultor e viveirista, o autor opina com responsabilidade e com a experiência de quem vivencia os bons resultados, mas, também, as agruras e desmandos habituais característicos da cultura de citros em nosso país

Se de um lado vemos uma cultura com boas perspectivas de futuro para os pomares produtivos, devido a atual provável queda da produção nacional – provocada por várias causas -, por outro lado, sentimos essa oportunidade se afastar de muitos citricultores, por conta da falta de coragem em investir na atividade, influenciados por vários aspectos:

  • Falta de recursos: atravessamos uma crise econômica no país e a citricultura também sofre esse reflexo. Se por um lado, o preço de comercialização da caixa de laranja está melhorando, as dívidas do passado ainda repercutem negativamente e alcançar o equilíbrio vai depender das próximas produções.
  • Aspectos fitossanitários: acompanhamos a evolução de doenças como o Greening e o Cancro Cítrico aumentando no Brasil e, principalmente, nos Estados Unidos. Essas enfermidades estão devorando as plantações norte-americanas e as produções declinando; devagar, declinando também a nossa produção. Será que vamos conseguir driblar essas doenças?  Para cada caso de relativo sucesso, também temos insucessos. O fato é que varias regiões citrícolas do estado de São Paulo, onde se concentravam pomares pequenos e médios, já foram dizimadas.
  • Aspectos nutricionais: os pomares brasileiros estão à beira do colapso nutricional. Mesmo com a produtividade caindo, menos adubos são fornecidos às plantas por conta da menor disponibilidade de recursos, iniciando uma rota do retrocesso. Em um panorama no qual aumentam as doenças, não alimentar os pomares adequadamente significa a morte econômica anunciada.
  • Aspectos climáticos: a cada dia, o clima nos assombra com suas variações. Tem mostrado muita diferença ao longo das temporadas e, comparativamente, também em relação às condições previsíveis. Nas últimas duas safras, a região entre o centro e o norte do estado de São Paulo teve suas produções comprometidas pela seca e pelo excessivo calor, justamente no período decisivo da florada, a ponto de não compensarem os gastos para efetuar a colheita de muitas quadras.
  • Mão de Obra: a competição pelos trabalhadores entre os diversos setores econômicos não favorece a agricultura. Caso o Brasil continuasse crescendo como antes da crise, fatalmente não haveria como trabalhar nas lavouras. A força de trabalho quer trabalhar na indústria, na construção civil, que remuneram mais. Além disso, a maioria dos citricultores não tem sucessão familiar para continuar na atividade.
  • Credibilidade: os componentes da cadeia citrícola não se entendem havia décadas. Falta uma política para o setor que equilibre a atividade e possa fortalecer a relação econômica entre os integrantes do negócio, substituindo a lei do “salve-se quem puder”, que é, verdadeiramente, aquela que vem regendo a comercialização e despertando uma imensa desconfiança, trazendo incertezas e descrédito entre todos, o que dificulta – sobremaneira – a mínima condição de planejamento.
  • Competição: a implantação e a manutenção da cultura da laranja são caras. A demora – ao redor de seis anos – para o retorno do capital investido limita a atividade e faz com que tenha menor competitividade como opção pelos produtores em relação a outras culturas, como a cana-de-açúcar, por exemplo, que mesmo menos lucrativas têm retorno mais rápido e menor risco.

Então, diante do exposto, não haverá o que fazer com a nossa laranja?

A gravidade do momento faz com que aumente a necessidade de ações imediatas, tanto no âmbito fitossanitário, como em relação às questões políticas, econômicas e financeiras.

O setor precisa de inúmeros trabalhos de pesquisas dos órgãos competentes e, no campo, a adoção plena de pacotes tecnológicos conjuntos para amenizar os danos das doenças, promovendo ações concretas de defesa fitossanitária para poder produzir com eficiência. Nesse aspecto, a você que planta ou quer plantar laranja, vai aqui uma dica: valorize a consultoria profissional. Tenha o acompanhamento de um assessor capacitado, simplesmente porque o momento não permite erros. Cada passo deve ser estudado e as minúcias fazem muita diferença, trazendo retorno mais rápido, além de evitar graves decepções.

Um estudo completo de viabilidade se faz necessário. Não acredite apenas nos mitos tradicionais, nem nas informações amadoras. Orientação técnica, pesquisa e planejamento são essenciais para o sucesso de qualquer atividade profissional. A definição da região geográfica, da localidade, da área a serem implantados os pomares são de suma importância. A escolha das variedades que sofram menos interferências pelas adversidades, os espaçamentos adequados, as finalidades das produções, entre outros fatores, constituem alguns aspectos do projeto que vão compor o estudo para a implantação da atividade.

Interessante que mesmo depois de saber de todas essas questões relacionadas são inúmeros os fatores que deixam de ser considerados pelo produtor na hora de optar pela citricultura. A definição da quantidade de mudas a ser plantadas, por exemplo, com orientação técnica, passa por uma análise mais abrangente do que é suposto pela maioria dos futuros citricultores. A definição desse número vai desde a área que se pode ocupar e o capital disponibilizado, até o valor do custo fixo do empreendimento, a produtividade das variedades escolhidas e o custo de um kit de equipamentos para manutenção do pomar.

Ainda, dentro do âmbito dos recursos financeiros, os citricultores e os viveiristas necessitam de financiamentos para implantação de novos pomares e de novos lotes de mudas e para a manutenção, para a assepsia fitossanitária e nutrição dos pomares implantados, seja via governo ou organização privada de crédito. Sem dinheiro na jogada, nenhuma laranja vai dar caldo.

O clima é um fator que está fazendo a diferença. O fato é que, dependendo da região que se implanta o pomar sem irrigação, não tem jeito. A esperança está depositada em variedades que respondam em plantios de sequeiro, mas dependem do desenvolvimento da pesquisa. Outra opção é buscar regiões com menor déficit hídrico – com menor interferência das oscilações do clima sobre as produções – embora produzam sucos com qualidade muitas vezes inferiores aos das regiões mais quentes, prejudicando a produção de suco fresco.

A mão de obra precisa ser atraída para o campo. Isso dependerá da remuneração, dos treinamentos visando a capacitação, assim como de um trabalho com os filhos dos citricultores incentivando a continuidade e a sucessão na atividade. Em épocas em que o resultado mostra-se lucrativo, esse convencimento é natural. Mas apenas um trabalho meticuloso e específico, baseado na educação, na importância e no orgulho de fazer parte do agronegócio é que estimulará os jovens produtores.

Despertar a credibilidade das partes envolvidas é simples: depende de regras claras, objetivas, honestas e equilibradas. Todas as partes têm que ser beneficiadas e, aí, o “Tom fica amigo do Jerry”.

A laranja é uma cultura fabulosa. A citricultura proporciona prazer em quem nela trabalha. Gera emprego e riquezas. As grandes empresas moageiras têm, necessariamente, que produzir – na sua maioria – frutas para industrialização de sucos, mas as pequenas e médias propriedades, nas quais predominam a agricultura familiar, têm um grande filão lucrativo voltado para o mercado interno de frutas frescas e suco fresco, que – se bem conduzidos – se torna a cultura mais lucrativa das possíveis em nossas regiões.

O desafio é grande, mas a somatória de ações rápidas e focadas, de todas as partes envolvidas, tornará possível que a cultura dos citros continue a brilhar, dando – com certeza – o pão nosso ou o suco nosso de cada dia.

Prática

Volian Targo syngenta